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Letramento digital se impõe como desafio diante da disseminação da inteligência artificial nas escolas

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A presença massiva da inteligência artificial (IA) nas rotinas escolares já não é uma previsão futura, mas uma realidade consolidada. Ferramentas como assistentes virtuais, geradores de textos e plataformas de ensino adaptativo têm sido amplamente utilizadas por estudantes e professores, transformando práticas pedagógicas e processos de aprendizagem.

 

Segundo dados do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), em 2023, cerca de 97% das escolas públicas brasileiras já contavam com acesso à internet, e mais de 80% delas utilizavam alguma ferramenta digital no cotidiano pedagógico. No entanto, o uso intensivo da tecnologia não se traduz, necessariamente, em letramento digital — uma competência que vai além do simples manuseio técnico, envolvendo compreensão crítica, ética e criativa sobre os processos mediados por algoritmos.

 

“Hoje, o desafio não é mais o acesso, mas a capacidade de compreender como a tecnologia molda nossa percepção do mundo”, afirma Luciana Allan, diretora do Instituto Crescer, organização especializada em inovação educacional. Para ela, o letramento digital deve ser tratado como competência essencial, tão importante quanto a alfabetização tradicional.

 

Nas salas de aula, o impacto é visível. Estudantes de todas as idades recorrem a ferramentas de IA para realizar atividades escolares: escrevem redações, sintetizam textos, criam apresentações e resolvem exercícios com o apoio de plataformas automatizadas. Ao mesmo tempo, professores têm incorporado a IA em processos como o planejamento de aulas, a organização de conteúdos segundo os códigos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e até a avaliação de desempenho.

 

“A IA me ajuda a otimizar o tempo de planejamento, cruzando rapidamente os descritores da BNCC com as habilidades que preciso desenvolver com meus alunos”, explica Maria Ferreira, professora da rede pública estadual, que há anos utiliza plataformas digitais em sua prática pedagógica. “Mas também percebo que os alunos tendem a usar a IA de forma automática, sem muita reflexão sobre os resultados.”

 

Essa superficialidade preocupa especialistas. O risco não está na tecnologia em si, mas na maneira como ela é utilizada. Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alerta que, sem a mediação adequada, o uso indiscriminado de ferramentas de IA pode comprometer habilidades cognitivas fundamentais, como a escrita, o pensamento crítico e a resolução de problemas.

 

“O uso excessivo de tecnologias automatizadas pode criar uma geração de estudantes que sabem operar as ferramentas, mas não compreendem como elas funcionam ou com quais interesses estão alinhadas”, observa José Moran, professor da USP e pesquisador em tecnologias educacionais. “Isso reforça desigualdades e limita a formação cidadã.”

 

O conceito de “analfabetismo digital”, muitas vezes usado para descrever a ausência de competências nesse campo, é hoje considerado insuficiente e até inadequado. Não se trata mais de ausência de acesso ou habilidade técnica, mas da necessidade de desenvolver um letramento digital profundo, que englobe aspectos culturais, éticos e sociais.

 

Na prática, isso significa formar estudantes capazes de interagir criticamente com a tecnologia, questionando seus mecanismos, reconhecendo seus limites e tomando decisões informadas sobre seu uso. Esse processo exige, por sua vez, a formação continuada de professores, que precisam estar preparados para orientar os alunos nesse percurso, além de lidar com novos dilemas éticos, como a integridade acadêmica e o risco de plágio.

 

As políticas públicas, contudo, ainda caminham a passos lentos nesse sentido. O Plano Nacional de Educação (PNE), cuja vigência se encerra em 2024, pouco avançou em metas relacionadas à formação para o uso crítico de tecnologias. Especialistas defendem que a próxima versão do PNE incorpore de maneira mais clara e objetiva as competências digitais como eixo estruturante da educação básica.

 

“Não basta colocar computadores na escola. É preciso formar professores e criar uma cultura de uso responsável e criativo da tecnologia”, defende Priscila Gonsales, fundadora do Instituto Educadigital, referência na promoção de direitos digitais.

 

Enquanto isso, iniciativas isoladas, muitas delas desenvolvidas por redes estaduais ou municipais, buscam suprir a lacuna. Programas como o “Inova Educação”, em São Paulo, ou o “Educação Conectada”, do MEC, representam passos importantes, mas ainda insuficientes frente à velocidade com que as tecnologias se transformam e se inserem na vida cotidiana dos estudantes.

 

Em meio a esse cenário, cresce a percepção de que o letramento digital deve ser considerado uma competência basilar do século XXI, tão relevante quanto a leitura e a escrita. O futuro da educação depende, cada vez mais, da capacidade de formar cidadãos capazes de atuar de maneira crítica e ética em um mundo mediado por algoritmos, inteligência artificial e fluxos massivos de informação.

 

O risco, apontam especialistas, é que a escola, se não assumir esse protagonismo, deixe de ser um espaço de formação crítica e passe a apenas reproduzir, de forma acrítica, a cultura digital dominante.

 

“Estamos diante de uma encruzilhada: ou transformamos a educação para integrar criticamente a inteligência artificial, ou seremos atropelados por ela”, conclui Moran.

 

 

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