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    Cadê a vacina doutor?

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    A pecuária brasileira, pilar fundamental do agronegócio nacional, enfrenta um desafio sanitário que transcende a esfera técnica e adentra o campo da gestão pública. A clostridiose, uma enfermidade infecciosa de alta letalidade causada por bactérias do gênero Clostridium e que tem provocado um número alarmante de mortes em rebanhos bovinos e ovinos. O agravante, no entanto, não reside apenas na virulência do patógeno, mas na escassez crítica de vacinas no mercado. A falta de planejamento do Ministério da Agricultura e Pecuária expõe os produtores a perdas econômicas severas e coloca em xeque a credibilidade das políticas de sanidade animal no país.

    A clostridiose manifesta-se de forma aguda, frequentemente fatal, e sem sinais clínicos evidentes. Doenças como o carbúnculo sintomático, a enterotoxemia e o edema maligno são responsáveis por surtos que dizimam lotes inteiros em poucas horas. A profilaxia, nesse contexto, depende exclusivamente da vacinação sistemática do rebanho, e quando o imunizante falta, a pecuária fica refém de um ciclo de perdas que se retroalimenta: o animal morre, o produtor perde capital, e a confiança no sistema de defesa sanitária se esvai.

    O cenário atual é de desabastecimento generalizado onde diversos laboratórios produtores relataram dificuldades na obtenção de matéria-prima e na logística de distribuição, mas o problema estrutural reside na ausência de um plano estratégico governamental. O MAPA, como órgão regulador e fomentador da sanidade, falha ao não antecipar a demanda, não estabelecer estoques reguladores e não articular com a indústria para garantir a produção contínua. A falta de vacina não é um evento climático ou uma fatalidade; é uma grande demonstração de falta de compromisso com o tema, um erro de gestão.

    Estima-se que a mortalidade por clostridiose em rebanhos não vacinados pode superar 10% do efetivo, resultando em prejuízos milionários para o pecuarista. Além da perda do animal em si, há o custo do descarte, a redução na taxa de natalidade e a desvalorização genética do plantel. Em um mercado onde a margem de lucro já é estreita, a ausência de uma vacina que custa centavos por dose transforma a atividade em um jogo de alto risco, ou seja, as consequências econômicas são imediatas e profundas.

    A falta de planejamento do departamento de saúde animal do MAPA também compromete a imagem do Brasil como exportador de carne. Países importadores, cada vez mais exigentes quanto à rastreabilidade e ao status sanitário dos rebanhos, podem impor barreiras comerciais diante da incapacidade de controle de uma doença prevenível. O prejuízo, portanto, não é apenas do produtor rural, mas de toda a cadeia produtiva e da balança comercial nacional.

    Essa crise expõe uma fragilidade sistêmica que não pode ser atribuída apenas ao acaso ou à sazonalidade, é a ponta de um iceberg de descoordenação entre o poder público e o setor produtivo. E para reverter esse quadro, é urgente que o Ministério da Agricultura assuma sua responsabilidade, implemente um plano de contingência robusto, dialogue com os laboratórios para garantir o fornecimento e crie mecanismos de monitoramento que evitem novos desabastecimentos.

    A pecuária brasileira não pode continuar refém de uma política sanitária reativa.

    A prevenção é o único caminho viável, e ela começa com compromisso, planejamento, transparência e ação coordenada. Sem vacina, o rebanho morre; sem planejamento, a credibilidade do setor público também sucumbe. A hora de agir é agora, antes que o prejuízo econômico se torne irreversível e a confiança do produtor, definitivamente perdida.

    *Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.

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