Giovana Fortunato
Nas últimas décadas, a forma como as mulheres constroem seus projetos de vida mudou profundamente. Hoje, muitas priorizam a formação acadêmica, a estabilidade financeira, o crescimento profissional e a busca por relacionamentos mais sólidos antes de decidir ter filhos. Como consequência, a maternidade vem sendo adiada para uma fase mais madura da vida.
Essa é uma escolha legítima e reflete conquistas importantes da sociedade. No entanto, existe um aspecto que precisa fazer parte dessa conversa: a fertilidade feminina possui limites biológicos que não acompanham, necessariamente, as transformações sociais.
É comum encontrarmos mulheres saudáveis, ativas e em plena realização profissional aos 35 ou 40 anos. Muitas vezes, a aparência física e a disposição transmitem a sensação de que o organismo funciona exatamente da mesma forma que aos 25. Porém, quando falamos de fertilidade, a realidade é diferente.
A mulher nasce com uma quantidade determinada de óvulos, que diminui naturalmente ao longo da vida. Além da redução da quantidade, ocorre também uma queda progressiva da qualidade dessas células reprodutivas. Esse processo é gradual, mas se torna mais evidente após os 35 anos e se intensifica depois dos 40.
Isso não significa que toda mulher terá dificuldade para engravidar nessa faixa etária. Muitas conseguem gestar naturalmente e têm gestações saudáveis. O que os especialistas observam é uma diminuição das chances de gravidez espontânea e um aumento do tempo necessário para que ela aconteça.
Além disso, com o avanço da idade, cresce o risco de abortamentos espontâneos, alterações cromossômicas dos embriões e algumas complicações gestacionais, como hipertensão e diabetes gestacional.
Outro ponto importante é que muitas mulheres só passam a refletir sobre sua fertilidade quando decidem engravidar. Nesse momento, podem descobrir condições que já estavam presentes há anos, como endometriose, síndrome dos ovários policísticos, alterações tubárias ou mesmo uma reserva ovariana reduzida.
Por isso, a informação é uma grande aliada do planejamento reprodutivo. Conhecer a própria saúde ginecológica não significa antecipar decisões ou criar ansiedade. Significa ter autonomia para fazer escolhas conscientes.
A avaliação da fertilidade pode ser realizada mesmo em mulheres que ainda não desejam engravidar. Consultas regulares com o ginecologista, exames específicos e uma análise individualizada permitem compreender melhor o potencial reprodutivo e identificar precocemente situações que merecem acompanhamento.
Nesse contexto, o congelamento de óvulos também surge como uma alternativa para algumas mulheres. Embora não represente uma garantia de gravidez futura, pode ampliar possibilidades para aquelas que desejam preservar sua fertilidade enquanto adiam a maternidade por motivos pessoais ou profissionais.
Mais do que discutir idade, precisamos falar sobre informação. O objetivo não é gerar medo ou pressão para que as mulheres tenham filhos mais cedo. O objetivo é garantir que elas tenham acesso a dados confiáveis para tomar decisões alinhadas aos seus próprios projetos de vida.
A maternidade mudou, a sociedade mudou e as escolhas femininas se ampliaram. Mas a biologia continua tendo um papel importante nessa equação. Conhecer essa realidade é uma forma de exercer a liberdade de escolha com mais segurança, planejamento e tranquilidade.
Dra. Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.

































