Documento lançado durante o 23º Cinemato denuncia desclassificação de festivais tradicionais em edital federal e reacende debate sobre concentração de recursos na política audiovisual brasileira
O encerramento do 23º Festival de Cinema de Cuiabá (Cinemato), realizado entre os dias 29 de junho e 5 de julho, foi marcado por um posicionamento político do setor audiovisual.
Produtores, realizadores, curadores e representantes de festivais lançaram a Carta de Cuiabá, documento que critica a recente desclassificação do Cinemato e de outros eventos históricos em edital do Ministério da Cultura (MinC) e reivindica mudanças estruturais na política nacional de fomento ao audiovisual.
A carta representa um movimento articulado de defesa da descentralização dos investimentos culturais e da valorização dos festivais realizados fora do tradicional eixo Rio-São Paulo.
Segundo os organizadores, a preocupação não se restringe ao resultado de um edital específico.
O documento questiona o modelo de avaliação adotado, aponta para uma concentração histórica dos recursos públicos e alerta para o risco de enfraquecimento da cadeia de formação do cinema brasileiro nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Ao longo de 23 edições, o Cinemato consolidou-se como um dos principais festivais do Centro-Oeste, reunindo produções nacionais, cineastas, estudantes, pesquisadores e representantes do mercado audiovisual.
A edição de 2026 exibiu 67 filmes de 17 estados brasileiros, promoveu debates, oficinas, seminários e recebeu nomes reconhecidos do cinema nacional, como Dira Paes, Bella Campos, Vanessa Gerbelli, Jorge Bodanzky, Betse de Paula e Régis Faria.
Neste ano, inclusive, o festival recebeu um importante reconhecimento institucional ao ser declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado de Mato Grosso, reforçando sua relevância para a cultura regional.
Paradoxalmente, poucos dias depois desse reconhecimento estadual, o festival passou a figurar entre os eventos desclassificados no processo seletivo federal de apoio aos festivais audiovisuais.
Essa contradição tornou-se um dos principais argumentos utilizados pelos articuladores da Carta de Cuiabá.
“Os festivais não são apenas vitrines”
Durante a divulgação do documento, o diretor do Cinemato, Luiz Borges, afirmou que o debate vai além do financiamento imediato.
Segundo ele, festivais cumprem papel estratégico na formação de público, circulação de filmes brasileiros, desenvolvimento profissional e fortalecimento das economias criativas locais.
Em vídeo divulgado nas redes sociais do Cine Ninja, Borges defende que o Ministério da Cultura retome uma política consistente de apoio aos festivais de cinema em todo o país.
A carta segue a mesma linha ao afirmar que os festivais constituem espaços permanentes de formação cultural, democratização do acesso ao audiovisual, incentivo à produção independente e fortalecimento da identidade regional.
Embora o documento não faça acusações individuais contra avaliadores, o texto demonstra preocupação com os critérios utilizados na seleção dos projetos.
A principal crítica está na ausência de mecanismos capazes de reconhecer a trajetória histórica dos festivais e seu impacto social ao longo das décadas.
Os organizadores argumentam que eventos consolidados, responsáveis pela formação de gerações de realizadores, acabaram ficando de fora do financiamento federal, mesmo apresentando histórico reconhecido nacionalmente.
A repercussão rapidamente ultrapassou Mato Grosso.
Nos comentários da publicação, representantes de diversos festivais manifestaram apoio à iniciativa.
Entre eles está a organização da 24ª Goiânia Mostra Curtas, que relatou situação semelhante.
Segundo a manifestação publicada pela direção do festival, o evento também foi desclassificado apesar de cumprir os requisitos previstos no edital.
O texto lembra que a mostra realizou 23 edições ininterruptas, manteve atividades inclusive durante a pandemia, promove laboratórios, cursos, debates e ações formativas, mas ainda assim ficou fora do financiamento.
A direção do festival classificou o resultado como surpreendente e declarou solidariedade ao Cinemato e aos demais festivais afetados.
Outros profissionais do audiovisual também destacaram que Mato Grosso vive um momento de expansão da produção cinematográfica e defenderam políticas públicas capazes de acompanhar esse crescimento.
A discussão reacende uma pauta recorrente dentro do setor cultural brasileiro: a distribuição regional dos investimentos públicos.
Historicamente, grande parte da produção audiovisual concentra-se nas regiões Sudeste e Sul, onde também estão sediadas importantes produtoras, distribuidoras e instituições do setor.
Para os defensores da Carta de Cuiabá, fortalecer festivais em outras regiões significa ampliar o acesso da população ao cinema brasileiro, estimular novos realizadores e garantir diversidade de narrativas.
O documento defende que políticas permanentes substituam ações pontuais, assegurando previsibilidade financeira para festivais que desempenham funções culturais, educacionais e econômicas.



























