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    Dia do Documentário Brasileiro: a escuta como ponto de partida

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    No dia 7 de agosto comemoramos o Dia do Documentário Brasileiro, uma data simbólica que homenageia uma das formas mais poderosas de narrativa e memória coletiva no país. 

    Para quem trabalha com esse gênero cinematográfico, é impossível não pensar no quanto cada obra exige coragem, escuta e compromisso com a realidade. É também um momento de refletir sobre a própria trajetória. E a nossa, na Galvão Sepúlveda Produções, tem sido feita de travessias – físicas e simbólicas.

     

    Desde o início, a produtora nasceu com o desejo de contar histórias que emergem das bordas, das margens, das florestas, das estradas, das aldeias, das cidades em expansão e dos conflitos que atravessam o Brasil profundo. 

    Equipe de cinema mato-grossense viajou para dentro da floresta realizar as filmagens do documentário ‘Mel da Floresta-Xingu’. Créditos: Vinicius Ferreira

    Nosso primeiro filme, “Mel da Floresta-Xingu”, nasceu assim: de uma escuta atenta ao projeto apícola desenvolvido com povos indígenas no Médio Xingu, em parceria com a prefeitura de Feliz Natal e a professora Clarice Saueressig. 

    O projeto foi contemplado em edital da Secretaria de Cultura do Estado de Mato Grosso e esteve em festivais pelo país, sendo quatro vezes laureado. Foi ali que consolidamos nossa linguagem, respeitando o tempo da comunidade e dos ciclos da natureza.

     

    Retornamos para a floresta este ano, 2025, para gravar o documentário étnico “Panango Atpotpot”, uma experiência profundamente transformadora. Foi a segunda vez que estivemos no Xingu, e novamente nos deparamos com a força e a generosidade dos povos originários — em especial nossos anfitriões, os Ikpeng. Registramos o rito de passagem do ritual de Furação de Orelha na aldeia Arayó, com participação de homens e mulheres de diversas aldeias próximas ao polo Pavorú, convidados dos Ikpengs.

    Em volta da fogueira, cacique conta sobre o Mito de Origem dos Ikpengs. Créditos: Vinicius Ferreira

    Foi uma jornada de escuta, cumplicidade, aprofundamento, deslocamento e entrega. Enfrentamos os desafios logísticos da expedição, mas acima de tudo, priorizamos o trabalho ético de filmar com respeito, entendendo que não se trata apenas de mostrar, mas de se responsabilizar por como mostramos.

     

    Também nos voltamos à cidade e seus caminhos com o documentário “BR-163 – A Luta pela Vida”, em fase de produção. Com essa narrativa, olhamos para a principal rodovia de Mato Grosso, um dos corredores logísticos mais importantes do Brasil, e que por anos foi também símbolo de abandono e tragédia. 

    A duplicação prometida não aconteceu no tempo previsto pela empresa concessionária.

    Famílias perderam entes queridos em acidentes evitáveis. Vidas foram atravessadas pela ausência do Estado e pela omissão da iniciativa privada. É uma obra sobre infraestrutura, sim — mas, sobretudo, sobre dor e justiça. A BR-163 deveria ser uma via de desenvolvimento, mas por muito tempo foi chamada de Rodovia da Morte.

     

    Por fim, mas com o mesmo peso, também tivemos o privilégio de documentar a trajetória dos pais da educação de uma cidade ainda em seus primórdios, no coração de Mato Grosso, a partir do documentário “Instituto Padre João Peter – Legado de Transformação e Compromisso”, em Lucas do Rio Verde.

    A instituição está intimamente ligada à história da cidade. Nos primórdios da colonização, quando tudo era incerto, o Instituto ofereceu abrigo, alimentação, educação, acesso a remédios e cultura.

    Foi ali que muitas famílias conseguiram permanecer. Resgatar essa memória é também um gesto de gratidão e de construção de identidade.

     

    Todos esses projetos foram realizados por meio de editais públicos da Secretaria de Cultura do Estado (SECEL) e da Secretaria Municipal de Cultura de Lucas do Rio Verde, viabilizados pelas leis de incentivo à cultura — como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Para uma produtora independente, esses instrumentos não são apenas importantes — são vitais. Eles garantem que vozes plurais sejam ouvidas e que temas urgentes sejam debatidos.

     

    Nosso processo criativo parte da escuta, passa pelo deslocamento, atravessa o coletivo e retorna em forma de imagem. E é nessa imagem que buscamos devolver ao mundo não respostas, mas perguntas. Porque o documentário é, antes de tudo, um exercício de perguntar melhor — sobre o país, sobre o outro e sobre nós mesmos.

     

    Neste Dia do Documentário Brasileiro, celebramos a escuta, o encontro e a responsabilidade de narrar. E seguimos firmes, com câmera na mão e ouvidos atentos, onde houver uma história que precise ser contada.

     

     

     

     

    Por Camila Galvão, produtora, roteirista, professora e jornalista. 

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