No Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, mergulhamos na história de um pioneiro que está quebrando barreiras e erguendo a bandeira da educação e preservação ambiental em sua comunidade. Korotowi Taffarel, Cacique da etnia Ikpeng, localizada na Terra Indígena Xingu, é o primeiro mestre indígena em Ciências Ambientais do Brasil.
Korotowi é uma das pessoas entrevistadas para o documentário “Mel da Floresta-Xingu”, produzido em Mato Grosso através de um edital de fomento do Audiovisual da Secel-MT. Os documentaristas registraram a história e memória da produção de mel dentro da floresta com as abelhas africanizadas. Através dessa experiência, os produtores culturais mato-grossenses tiveram a oportunidade de entender mais sobre as comunidades indígenas, os costumes dos povos originários e a integração com a riqueza cultural das etnias, além da preservação ambiental promovida pelo cultivo do mel.
O cacique Ikpeng defendeu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Estado de Mato Grosso. A cerimônia ocorreu em 19 de março, na cidade de Cáceres, Mato Grosso. Sua pesquisa, intitulada “Ritual da Tatuagem: Educação Ambiental e Prática Cultural entre os Ikpeng”, foi orientada pelo professor doutor Elias Januário e contou com a avaliação de renomados acadêmicos, incluindo Germano Guarim Neto, Aumeri Carlos Bampi e Waldir José Gaspar.
A jornada de Korotowi rumo à excelência acadêmica começou na Faculdade Indígena Intercultural da Unemat, em Barra do Bugres, onde integrou a primeira turma dos cursos de Licenciaturas. Seu percurso acadêmico reflete não apenas sua dedicação pessoal, mas também o compromisso contínuo dos povos indígenas em buscar seus direitos constitucionais e afirmar sua cidadania plena.
Em uma entrevista exclusiva, Korotowi compartilhou sua visão e experiência. “Este momento não é apenas minha conquista pessoal, mas uma vitória coletiva de nosso povo. É um passo em direção à valorização de nossa cultura e à proteção de nossa terra”, afirmou o Cacique.
Questionado sobre os desafios enfrentados durante sua jornada acadêmica, Korotowi destacou a necessidade de superar estereótipos e preconceitos. “Muitas vezes, fui subestimado por minha origem indígena. Mas acreditei em mim mesmo e no potencial de minha comunidade. Esta conquista é uma prova de que podemos alcançar grandes feitos quando somos valorizados e apoiados”, declarou.
Além de seu papel como acadêmico, Korotowi continua desempenhando um papel fundamental em sua comunidade, promovendo a educação ambiental e a preservação cultural. Seu exemplo inspirador demonstra que a excelência acadêmica e o ativismo comunitário não são mutuamente excludentes, mas sim complementares na construção de um futuro sustentável para todos.
Durante a expedição na Aldeia Arayó com o Cacique Korotowi Taffarel, líder da comunidade indígena, os documentaristas tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a realidade e as experiências vividas por eles. O cacique gentilmente compartilhou informações sobre a recepção de equipes de filmagem, a recente chegada do Wi-Fi à aldeia e o impacto do cultivo de mel na rotina e alimentação da comunidade.
Korotowi ressaltou que a visita da equipe de filmagem para o documentário não foi uma surpresa, pois a comunidade já havia recebido equipes anteriormente para registrar projetos em que estavam envolvidos. “Não é a primeira vez. Já tivemos outras filmagens sobre os projetos que a gente vem trabalhando também, porém nunca algo tão elaborado quanto uma equipe de cinema”, comentou.
Em um ambiente onde a presença de estranhos representa uma ameaça constante à cultura e ao meio ambiente, o Cacique Korotowi destacou a importância vital da preservação das terras demarcadas para os indígenas. Ele enfatizou que essas terras não pertencem apenas aos povos nativos, mas também à União e à sociedade em geral. No entanto, a falta de infraestrutura, como estradas, torna a vida e a proteção dessas terras ainda mais desafiadoras.
“Qualquer projeto, qualquer movimento que a gente faz aqui dentro, os povos que já moravam aqui dizem para a gente que a gente não é daqui, mas esquece que a terra demarcada não é só deles, a terra demarcada é da União, de vocês também, e o nosso também”, destacou o Cacique Korotowi.
Além das questões de invasão e exploração ilegal de recursos naturais, o Cacique Korotowi também abordou os impactos negativos causados por atividades como a pesca predatória e a caça ilegal dentro dos limites territoriais da comunidade. A falta de presença diária dos indígenas nessas áreas torna a fiscalização e proteção do território uma tarefa árdua.
“Nosso povo se preocupa muito com a fiscalização do nosso lado, do nosso território”, ressaltou o Cacique.
No entanto, apesar dos desafios enfrentados, o Cacique ressaltou a profunda relação dos Ikpeng com a natureza, incluindo a importância das abelhas em sua cultura.
“A abelha, a abelha é a abelha mesmo. […] Além de respeitar a floresta, a gente tem esse respeito pelas abelhas também. Não só as abelhas de ferrão, mas todas as vespas”, afirmou.
A conversa também abordou a transição da comunidade em relação à apicultura e os desafios enfrentados com a introdução de abelhas africanizadas, que não são naturais do Brasil, mas são resultado de um acidente em laboratório em que abelhas africanas ganharam a natureza, cruzaram com a Jataí, original do
bioma e que não tinham ferrão, e tornaram-se uma espécie que as comunidades não estavam acostumadas a lidar, impedindo a coleta de mel por conta de sua agressividade.
“Algumas famílias consideravam como um suplemento, não por causa do ferrão, porque a gente não conseguia entender bem se todo mundo poderia estar consumindo. […] Até mesmo quando criança pequena come, surgem tipo perebas, feridas, com bolhas. Então, a gente não sabia por que dava aquilo”, explicou o Cacique Korotowi.
Ao discutir o cultivo de mel, o cacique destacou que a atividade não mudou drasticamente a rotina da comunidade: “Ele não mudou a rotina porque a gente tem planejamento. A gente tem plano de trabalho.” Ele explicou que os apicultores se reúnem em dias específicos para visitar os apiários e que a atividade não interfere nas atividades cotidianas: “Naquele dia, no dia marcado, os apicultores se juntam e vão visitar todos os apiários. E no dia seguinte, todo mundo volta para essa atividade normal.”
Quanto à alimentação, o cacique esclareceu que o mel fortaleceu a dieta da comunidade, mas não a complementou: “O mel não complementou a alimentação porque a gente já usava mel. A gente já tirava, naturalmente, na selva.” Ele acrescentou: “Hoje com essa criação de abelha, a gente tirando o mel, todo mundo participa. Isso só veio aumentar, crescer, fortalecer.”
Destacando sua experiência com equipes de filmagem, a chegada recente do Wi-Fi à aldeia e o impacto do cultivo de mel na rotina e alimentação da comunidade, suas palavras revelam a resiliência e a adaptação desse povo, preservando suas tradições enquanto abraçam novas oportunidades.
Após a discussão sobre a relação das abelhas com a comunidade indígena, o Cacique Korotowi Taffarel abordou as dificuldades enfrentadas atualmente. Ele compartilhou as preocupações em relação à falta de estradas na região e como isso afeta o acesso a recursos e a realização de projetos.
O cacique explicou que a aldeia está localizada em uma área remota, sem estradas que facilitem o deslocamento. Ele descreveu as longas viagens que precisam ser feitas para trazer suprimentos e implementar projetos. O que normalmente levaria seis horas pode se transformar em doze horas quando o transporte está carregado. Ele destacou a importância de ter uma estrada para facilitar o acesso e resolver uma das principais dificuldades enfrentadas pela comunidade.
Além disso, ele mencionou os problemas enfrentados com a presença de invasores em seu território. Pescadores predatórios, madeireiras ilegais e caçadores de pássaros clandestinos adentram as áreas demarcadas, causando impactos negativos ao meio ambiente e à vida da comunidade. O cacique ressaltou a importância da fiscalização e proteção do território para garantir a sobrevivência de seu povo e preservar a natureza.
Ao abordar essas questões, o Cacique Korotowi Taffarel revelou a luta diária para manter sua cultura e modo de vida tradicionais. Ele expressou sua preocupação com a preservação da terra demarcada, enfatizando que ela pertence à união de todos, tanto aos indígenas quanto aos demais brasileiros.
Por fim, Korotowi expressou sua esperança de que sua jornada inspire outros jovens indígenas a perseguirem seus sonhos, sem jamais esquecerem suas raízes e responsabilidades para com sua terra e seu povo.
Neste Dia dos Povos Indígenas, celebramos não apenas a história de Korotowi Taffarel, da etnia Ikpeng, mas também o legado de resiliência, sabedoria e compromisso dos povos indígenas em todo o Brasil.




























