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    Cuiabá aposta em cultura como identidade, cidadania e motor econômico, afirma secretário Johnny Everson

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    O secretário municipal de Cultura de Cuiabá, Johnny Everson, defendeu que a política cultural precisa ser tratada como estratégia de governo e não apenas como uma agenda de eventos.

    Em entrevista ao jornalista Zico Zortea, o gestor afirmou que “políticas públicas de cultura é bem complexo, ampla e profunda mesmo”, e argumentou que a cultura deve ser compreendida em três eixos centrais: simbólico, cidadania e econômico.

     

    Segundo ele, o primeiro eixo é o simbólico, responsável por manter viva a identidade mato-grossense diante do avanço da globalização. “É esse que o senhor abordou muito bem, sobre as manifestações, as tradições, as raízes, as inovações, é o que nos diferencia perante os outros estados”, disse. Para Johnny, o poder público tem papel decisivo em ações de “manutenção, de resgate, de preservação dessa nossa história, da memória, das nossas identidades”.

     

    Ao citar exemplos práticos, o secretário destacou manifestações tradicionais como cururu, siriri, rasqueado e lambadão, mas fez questão de ressaltar que Mato Grosso também é um estado multicultural. “Eu sou grato à entrada dessas novas culturas que transformaram a nossa cultura mato-grossense”, afirmou, ao mencionar a contribuição de sulistas, nordestinos e migrantes de outras regiões que chegaram em massa principalmente a partir da década de 1960. Na avaliação dele, essa mistura ajudou a consolidar o estado como potência produtiva. “Tornaram nossa agricultura agronegócio”, disse.

     

    No segundo eixo, o de cidadania, Johnny Everson defendeu que a cultura é uma ferramenta de pertencimento e inclusão social, especialmente na proteção de crianças e jovens. “É quando a cultura nos traz o sentimento de pertencimento, o patriotismo, o amor pelas nossas origens”, declarou. Para ele, a arte também funciona como instrumento de prevenção social, ao ocupar o tempo de crianças no contraturno escolar e reduzir a vulnerabilidade. O secretário chegou a mencionar o impacto da ociosidade na juventude e criticou o fenômeno dos chamados “nem-nem”, jovens que “nem estuda, nem trabalha”.

     

    Ao ampliar o conceito, o gestor também associou cultura a valores de convivência, comportamento e formação social. “Se uma criança chega com cinco anos de idade dentro da sala de aula pela primeira vez e ameaça agredir a professora, é falha na cultura”, afirmou. Em outro trecho, defendeu que a responsabilidade de educar vem da família: “Professor não tem obrigação de educar filho de ninguém. Tem obrigação de ensinar academicamente”.

     

    Para Johnny, o terceiro eixo — o econômico — é o que ainda é menos compreendido pela população, embora seja um dos mais determinantes para o desenvolvimento de cidades e estados. “Se nós entendermos que a internet ela é o que é, graças à cultura, porque o que movimenta os trilhões de dólares na internet são os instrumentos culturais”, afirmou, citando cinema, música, jornalismo, literatura, moda, artesanato, artes visuais e economia criativa.

     

    Johnny Everson também defendeu que grandes eventos não representam assistencialismo, mas investimento com retorno financeiro. “Os eventos movimentam a economia de qualquer cidade”, afirmou, detalhando que uma programação envolve seguranças, equipes de recepção, locação de infraestrutura, produtores, comércio e rede hoteleira. Para sustentar a tese, citou um dado atribuído à Fundação Getulio Vargas (FGV). “Segundo a FGV, numa pesquisa de 2019, cada mega-evento, a cada um real que o governo aporta no evento, ele recebe de volta, em média, 13 reais”, declarou.

     

    Durante a entrevista, o secretário também elogiou a estrutura do Parque Novo Mato Grosso e disse que o espaço tende a se tornar um marco de referência. “Vai se tornar de fato uma grande referência internacional para Mato Grosso perante o mundo, para os grandes eventos”, afirmou. Ele defendeu ainda o modelo de chamamento público, com gestão por entidade do terceiro setor, dizendo que isso garante “mais velocidade, mais rapidez, menos burocracia para suas decisões”.

     

    Entre os projetos anunciados para 2026, um dos principais é o “Projeto Musical nas Escolas”, que pretende implementar ensino musical no ensino fundamental da rede pública de Cuiabá, do 3º ao 9º ano. Johnny Everson explicou que a proposta ganhou força após a fusão administrativa envolvendo Cultura, Educação e Esporte, o que inicialmente gerou temor dentro do setor. “Quando houve a ideia de fusão… houve uma preocupação muito grande”, disse. Ele relatou que a secretaria temia perder autonomia e orçamento diante das urgências da educação e da saúde. “Vai ser difícil disputar um recurso com a educação”, afirmou.

     

    O secretário, no entanto, disse que o prefeito Abílio Brunini garantiu que a intenção da fusão é fortalecer cultura e esporte dentro das escolas. “Fiquem tranquilos, porque a minha intenção com essa ideia da fusão é exatamente fortalecer a cultura e o esporte”, relatou Johnny, citando a fala do prefeito. Para ele, o contraturno escolar é o ponto central do projeto, já que milhares de crianças ficam sem acesso a atividades culturais. “Quantas crianças estão dentro das escolas sem acesso à cultura? Milhares”, afirmou.

     

    Ao defender o ensino musical, Johnny Everson sustentou que o objetivo não é formar músicos, mas desenvolver competências emocionais e cognitivas. “Uma criança que aprende a tocar um instrumento, ela desenvolve mais a sua emotividade, a sua empatia”, disse. Ele citou como referência um projeto de Niterói (RJ), que conheceu pessoalmente. “Lá se chama Aprendiz Musical. 12 mil alunos participam desse projeto”, relatou. A meta em Cuiabá, porém, é maior. “Nossa intenção é já começar com 20 mil alunos em Cuiabá”, afirmou.

     

    Segundo ele, o projeto prevê aulas inicialmente dentro da grade escolar, depois atividades no contraturno e, para alunos com maior desenvolvimento, a formação de grupos musicais, cameratas e até orquestras. O secretário também afirmou que o projeto pode incluir a aquisição de instrumentos e empréstimo para que alunos levem para casa. “O projeto prevê inclusive a aquisição de instrumento musical e concessão, empréstimo para que a criança leve para casa”, disse.

     

    Na área de fomento, Johnny Everson explicou que Cuiabá recebeu R$ 4.218.000 por meio do Plano Nacional Aldir Blanc. “O Cuiabá recebeu R$ 4.218.000 agora, dia 31 de dezembro, entrou na nossa conta”, afirmou. Segundo ele, o Conselho Municipal de Políticas Culturais já se reuniu no início de 2026 para construir o cronograma de editais. “Vamos construir editais, para que o artista… possa desenvolver seus projetos e concorrer”, disse, destacando que os critérios serão “transparentes” e voltados a oito segmentos culturais.

     

    Além dos editais federais, o secretário afirmou que a pasta prepara um edital de credenciamento de artistas com recursos próprios, para atender eventos comunitários que pedem apoio da prefeitura. Ele explicou que a secretaria possui estrutura licitada para palco, som, iluminação, banheiros e tendas, mas não tem artistas credenciados. “Nós não temos artistas licitados”, afirmou. Com o credenciamento, a ideia é ter um “cardápio” para apoiar festas e kermesses, garantindo renda para artistas locais. “Assim a gente fomentar, a gente gerar renda para a classe artística de Cuiabá”, disse.

     

    Ao falar da programação anual, Johnny Everson afirmou que a secretaria mapeou mais de 500 eventos que passaram por aprovação na Câmara ao longo das últimas décadas, mas ponderou que nem todos podem ser considerados oficiais. “Catalogamos mais de 500 eventos… mas naturalmente que esses eventos não são oficiais por sua tradicionalidade”, afirmou. O calendário, segundo ele, é ancorado principalmente nas festas tradicionais e nos marcos religiosos e culturais.

     

    Entre os destaques citados estão as festas de São Gonçalo, o Carnaval, o aniversário de Cuiabá em abril, a Festa do Senhor Divino em maio, festas juninas em junho, ExpoAgro em julho, festividades de São Benedito em setembro e a programação de dezembro. Sobre o aniversário da capital, o secretário disse que a intenção é realizar um grande evento com shows nacionais. “Pra esse ano a gente quer fazer um grande evento no dia 7, 8 de abril, com shows nacionais”, afirmou.

     

    No fim do ano, Johnny Everson destacou o crescimento do Réveillon realizado pela prefeitura. Segundo ele, a expectativa inicial era de 5 mil pessoas, mas a estrutura foi montada para 20 mil, e o público chegou a 40 mil. “Vieram 40 mil pessoas no Réveillon”, afirmou. Para a próxima virada, o secretário projeta ainda mais. “Eu acho que vai dar umas 70, 80 mil pessoas”, disse, explicando que a prefeitura já estuda como ampliar o espaço para garantir segurança e conforto.

     

    Ao longo da entrevista, Johnny Everson insistiu que o maior desafio da gestão é fazer a população compreender a cultura como política pública ampla, capaz de impactar identidade, cidadania e economia. “Não é só um evento, não é só uma festa”, afirmou. Para ele, o setor cultural é parte estratégica da cidade e deve ser tratado como investimento: “O governo não faz assistencialismo nenhum quando ele aporta recursos no evento. Ele faz um investimento de alta lucratividade”.

     

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