Vice-campeã brasileira na categoria Production Damas, atleta mato-grossense transforma experiência internacional em resultado expressivo e projeta disputa do Pan-Americano
A trajetória recente de Tabata Claro no tiro esportivo é marcada por intensidade, disciplina e superação. Vice-campeã brasileira na categoria Production Damas, a atleta voltou ao Brasil com resultados concretos após integrar a Seleção Brasileira no Campeonato Mundial realizado na África, experiência que, segundo ela, foi decisiva para o amadurecimento técnico e emocional que a levou ao pódio nacional. Em entrevista concedida ao jornalista Zico Zortea, Tabata detalhou os bastidores dessa caminhada, falou sobre rotina de treinos, desafios da alta performance e a crescente presença feminina em uma modalidade historicamente dominada por homens.
Integrar a Seleção Brasileira e competir ao lado das melhores atiradoras do mundo foi, nas palavras da atleta, “uma experiência ímpar, surreal”. Ambientada às pistas de tiro, Tabata relata que o impacto maior esteve na convivência com atletas profissionais de países onde o tiro esportivo é culturalmente consolidado. “Aqui a gente levanta e vai trabalhar. Lá, elas levantam e vão para a academia de tiro. Elas vivem do tiro esportivo”, comparou. Mesmo diante desse cenário altamente competitivo, Tabata foi a brasileira melhor colocada entre as mulheres de sua divisão, finalizando o Mundial na 25ª posição geral. “Poder trocar experiências, conversar e aprender com campeãs mundiais e europeias já valeu muito a ida ao Mundial”, afirmou.
De volta ao Brasil, a bagagem internacional rapidamente se refletiu em desempenho. O ciclo intenso de preparação para a Seleção, aliado às etapas seguintes do Campeonato Brasileiro, culminou na final nacional, onde Tabata disputou ponto a ponto o título. “Eu vi que tinha chance real de ser campeã e treinei mais um pouco. Acabei ficando com o vice-campeonato por apenas 3% de diferença”, explicou. Um problema técnico na arma, ocorrido durante a prova decisiva, foi determinante no resultado. Ainda assim, a atleta fez questão de destacar o alto nível da competição. “Foi uma disputa muito acirrada. Todas as meninas competiram com excelência”, ressaltou.
A rotina por trás desses resultados exige dedicação extrema. Tabata revelou que o treinamento mínimo envolve cerca de 500 disparos por fim de semana, além de sessões diárias de treino em seco, realizadas em casa, para desenvolver memória muscular. “São movimentos repetitivos de saque, visada e troca de carregador. Quanto mais rápido e preciso, melhor o desempenho”, explicou. Na categoria Production, tempo, velocidade e precisão caminham juntos, o que também demanda preparo físico rigoroso. “Eu precisei emagrecer. Chegava ofegante no fim das pistas. É uma explosão física muito rápida, além de um nível de concentração altíssimo. Saúde física e mental são fundamentais”, pontuou.
O reconhecimento veio também em forma de medalhas. Entre elas, Tabata destaca com orgulho as chamadas medalhas presidenciais da IPSC, concedidas aos vencedores de etapas. “Mais do que troféu, essa é a medalha dos sonhos”, disse, ao revelar que já acumula oito dessas conquistas. À coleção somam-se as medalhas da final do Campeonato Brasileiro, incluindo o título de vice-campeã nacional e o primeiro lugar na Classe C, categoria em que compete diretamente com homens.
Além do desempenho esportivo, Tabata enxerga sua trajetória como parte de um movimento maior de transformação dentro do tiro esportivo. “É muito bom ver as mulheres ocupando espaços que antes eram só dos homens. Hoje somos acolhidas nos campeonatos e temos todos os espaços. O que a gente quer é um tiro mais fortalecido, com mais mulheres e mais jovens”, defendeu.
O próximo desafio já está no horizonte. A colocação no Brasileiro garantiu à atleta vaga na Seleção que disputará o Campeonato Pan-Americano, previsto para setembro, possivelmente em Aruba ou na Argentina. Até lá, a atleta pretende reduzir temporariamente o ritmo de treinos após um período considerado por ela “exaustivo”, retomando a preparação mais intensa a partir de julho. “Aonde for, eu vou estar lá”, garantiu.
Entre uma prova e outra, a atleta segue presente nas competições estaduais e municipais, como a etapa em Primavera do Leste, e mantém o entusiasmo que a levou até aqui. “O tiro nunca acaba. A gente fala que vai parar, mas não consegue”, brincou. Ao final da entrevista, Tabata reforçou o convite para que mais mulheres vivenciem o esporte. Instrutora de tiro, ela acredita que a experiência pode ser transformadora. “Toda mulher deveria ir pelo menos uma vez a um clube de tiro”, afirmou, confiante de que ainda retornará para novas entrevistas — e com mais medalhas.




























