A biografia política de Júlio Campos dispensa apresentações. Governador aos 35 anos, senador da República, deputado federal por três mandatos, prefeito de Várzea Grande, conselheiro do Tribunal de Contas — poucos mato-grossenses ocuparam tantos espaços de poder. Mas, aos 79 anos, prestes a completar aniversário no próximo dia 11 de dezembro, o veterano político afirma viver uma das fases mais intensas — e surpreendentes — de sua vida pública.
Em entrevista ao Espaço Aberto, ele revisitou momentos decisivos de sua trajetória, explicou por que só concorreu ao cargo de deputado estadual em 2022 — o único que ainda não havia ocupado — e detalhou suas frentes de atuação no mandato que vem desempenhando na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). Entre memórias, autocrítica, independência política e um ritmo de trabalho que ele define como “pique de 60 anos”, Júlio Campos mostrou que não pretende desacelerar tão cedo.
O sonho antigo: ser deputado estadual
O parlamentar começou a entrevista lembrando que sua primeira ambição eleitoral, ainda em 1970, era justamente o cargo que só alcançaria mais de 50 anos depois. À época recém-formado engenheiro agrônomo, foi convidado pelo então presidente da Assembleia Legislativa, Emanuel Pinheiro da Silva Primo, para disputar uma cadeira estadual. O projeto era uma dobradinha política que quase se concretizou — até a chegada de Vicente Emílio Vuolo, ex-prefeito de Cuiabá, que precisava de espaço político para retornar à vida pública.
Por articulação interna, Júlio recuou. A partir dali, trilhou um caminho ascendente que o levaria ao Executivo e ao Congresso, deixando o antigo desejo sempre à margem. “Ficou uma frustração na minha vida”, admitiu. “Quando retornei à política depois do transplante de fígado em 2017, disse que só voltaria se fosse para ser deputado estadual. Queria matar essa vontade.”

Ele conseguiu. E, mesmo sem campanha ostensiva no interior, foi votado em 139 dos 141 municípios — fenômeno que atribui à memória de obras de integração feitas quando foi governador. “Foi uma homenagem póstuma ao meu governo”, disse, recordando rodovias, traçados pioneiros e a criação de 24 municípios em 1986.
Experiência na ALMT: proximidade, cobrança e rotina intensa
Depois de 20 anos no Congresso Nacional, Júlio se surpreendeu com o dinamismo do Legislativo estadual. “O deputado estadual é um vereador de luxo”, definiu, rindo de si mesmo, mas reforçando que a expressão reflete a realidade: presença constante nas comunidades, pressão diária por saúde, educação, infraestrutura e atendimento direto ao cidadão.
“Eu virei um office boy de luxo: passo o dia indo a secretarias, hospitais, escolas, resolvendo demandas das pessoas”, descreveu. A comparação é menos crítica do que parece — revela, na verdade, sua redescoberta de um papel político mais imediato e palpável.
Entre suas principais atividades, destinações de emendas parlamentares têm ocupado destaque. Mesmo com orçamento reduzido, afirma ter priorizado a saúde pública e investimentos estratégicos para os municípios — incluindo adversários políticos, como os prefeitos Flávia Moretti (Várzea Grande) e Abílio Júnior (Cuiabá). “Emenda é para o povo, não para aliados”, enfatizou.
Ele também destacou apoio à agricultura familiar, cursos profissionalizantes da Unemat no interior e ações voltadas a jovens e idosos — público que, segundo o deputado, enfrenta abandono crônico na rede pública de saúde.
Independência política e atuação legislativa
Apesar de integrar a base do governo Mauro Mendes, Júlio Campos faz questão de afirmar que mantém autonomia. “Não sou rato de palácio”, disse. “Sou da base, mas não sou puxa-saco.”
Entre suas principais iniciativas, mencionou a defesa da causa animal, incluindo projetos comentados que tratam de proteção de pets; proibição da desomenagem, para impedir que nomes de obras públicas sejam removidos por disputas políticas; projeto autorizando a destinação direta de emendas às ações sociais de igrejas católicas, evangélicas e centros espíritas, evitando a intermediação de prefeituras que, segundo ele, muitas vezes retêm ou não aplicam os recursos.
“Prefiro investir na área social do que bancar shows caros para trazer artistas de fora”, reforçou.
Frustrações: poucas sessões e comissões esvaziadas
Nem tudo agradou o deputado. A principal frustração mencionada diz respeito ao número reduzido de sessões plenárias — apenas às quartas-feiras — e à pouca participação dos parlamentares em comissões técnicas. Ele confessou ter tentado mudar essa dinâmica, mas desistiu depois de avaliar as condições práticas dos deputados do interior, que precisam viajar semanalmente.
Mesmo assim, deixa claro que continua cobrando assiduidade e funcionamento efetivo das comissões.
Aos 79 anos, Júlio Campos fala sobre envelhecer com naturalidade, mas sem deixar que a idade defina sua disposição. “Penso como um jovem de 20, 30 anos”, afirmou, lembrando que vem de uma família longeva, com tios de quase 100 anos.
Com saúde restabelecida após o transplante e “entusiasmo intacto”, ele admite que pode disputar a reeleição em 2026. “Se tiver saúde e ânimo, posso enfrentar mais um mandato. Não por vaidade — essa fase já passou — mas para continuar servindo ao Mato Grosso”, garantiu.
A entrevista encerrou com uma cena simbólica: Júlio relatou que, ao chegar para a gravação, um cidadão pediu uma selfie na esquina do prédio. O gesto simples — cotidiano para celebridades, mas nem sempre comum para políticos — emocionou o deputado. “É muito agradável ser bem tratado pelo povo em todo lugar”, disse. No fundo, talvez seja essa conexão que ainda o mova.






























