A visita da cantora Anitta ao Parque Indígena do Xingu, acompanhada de Luciano Huck, para conhecer de perto o Kuarup, ritual de homenagens fúnebres dos povos indígenas do Médio Xingu, reacendeu na opinião pública o olhar para a profundidade cultural dos povos originários. O Kuarup é um dos símbolos mais conhecidos do Xingu, mas não o único.
A experiência de convívio com as comunidades indígenas revela que a vida cotidiana é marcada por uma diversidade de ritos que vão muito além do universo funerário, e que dizem respeito diretamente à forma como cada sociedade encara o amadurecimento e a própria existência.
Nos últimos meses, tive a oportunidade de estar imersa no Panango Atpotpot, o rito de furação de orelhas dos Ikpeng, realizado na aldeia Arayó, no Médio Xingu. Esse ritual é uma celebração de passagem da infância para a adolescência, e ao mesmo tempo um aprendizado profundo sobre o significado de tornar-se adulto. Diferente do que se poderia imaginar à primeira vista, não se trata apenas de uma marca física. O processo envolve dor, disciplina, resistência, mas, sobretudo, transformação.
Quando acompanhei o olhar dos jovens depois do ritual, percebi que algo tinha mudado. Uma chave simbólica havia se virado dentro deles. No brilho dos olhos, no silêncio que carregavam, havia o peso de uma nova consciência: a de que, a partir daquele momento, eram reconhecidos por sua comunidade como homens e mulheres. Isso nos faz pensar também sobre a nossa própria sociedade.
Quantos dos nossos jovens atravessam a vida sem um rito de passagem? Quantos chegam à idade adulta sem amadurecer de fato, permanecendo emocionalmente frágeis, muitas vezes incapazes de assumir responsabilidades, ainda que ostentem cabelos brancos?
Nossas conversas com os Ikpeng revelaram uma preocupação que ecoa entre diversas etnias do Xingu: a sensação de que o Brasil e o mundo conhecem apenas o Kuarup, como se a riqueza cultural do território pudesse ser resumida a um único ritual. “Existem muitos outros ritos, existem outras histórias que precisam ser vistas”, disseram, enfatizando que o Xingu não é formado apenas pelos povos mais conhecidos, mas por uma diversidade de etnias que também têm saberes e tradições fundamentais para a sobrevivência cultural indígena. Dar visibilidade a essa pluralidade é reconhecer que cada povo guarda uma peça indispensável desse grande mosaico que forma o Brasil profundo.
Ver Anitta no Xingu foi importante para que milhões de brasileiros tenham um contato, ainda que pela televisão, com a força dessa tradição. Mas fica o convite para que ela e tantos outros possam ir além do olhar externo e conhecer a fundo povos como os Ikpeng. A aldeia Arayó guarda não apenas o Panango Atpotpot, mas também uma história viva de resistência, de sabedoria e de beleza que precisa ser contada.
Assim como o Kuarup fala da memória e da ancestralidade, o Panango Atpotpot nos revela o caminho para o futuro, pois é no amadurecimento das novas gerações que se constrói a continuidade dos povos. A cultura indígena não está presa ao passado, ela é presente e projeto de futuro. E é no encontro com esses saberes que todos nós, brasileiros, podemos aprender a nos reinventar.





























