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Influenciadores são pagos para espalhar fake news contra vacina da Pfizer

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Os youtubers que denunciaram campanha secreta para espalhar fake news contra vacina da Pfizer
Charlie Haynes e Flora Carmichael – BBC Trending

Os youtubers que denunciaram campanha secreta para espalhar fake news contra vacina da Pfizer

Uma agência de marketing ofereceu pagamento para que influenciadores de redes sociais de todo o mundo espalhassem desinformação sobre vacinas contra a covid-19.

Dentre eles, um YouTuber brasileiro.

Everson Zoio, conhecido por vídeos em que cumpre desafios inusitados, como o de colocar a mão em um formigueiro, publicou um vídeo em seu Instagram levantando dúvidas sobre a segurança da vacina da Pfizer. O vídeo foi deletado quando a história veio à tona. Ele não respondeu aos pedidos de comentário da BBC (leia mais abaixo).

Por outro lado, alguns dos influenciadores que receberam o convite da agência de marketing denunciaram a tentativa de recrutá-los.

“Tudo começou com um e-mail”, diz Mirko Drotschmann, um YouTuber e jornalista alemão.

Drotschmann normalmente ignora ofertas de marcas que lhe pedem para anunciar produtos para seus mais de 1,5 milhão de seguidores. Mas a oferta de patrocínio que ele recebeu em maio deste ano foi diferente de qualquer outra.

A agência, chamada Fazze, pediu que ele promovesse o que ela dizia ser informações vazadas que sugeriam que a taxa de mortalidade entre as pessoas que recebiam a vacina Pfizer era quase três vezes maior que a da AstraZeneca.

As informações fornecidas não eram verdadeiras.

Rapidamente ficou claro para Drotschmann que ele estava sendo convidado a espalhar desinformação para minar a confiança do público em relação a vacinas no meio de uma pandemia.

Mirko Drotschmann em vídeo

Mirko Drotschmann
Mirko Drotschmann recebeu oferta de dinheiro para espalhar desinformação em suas contas em redes sociais (e recusou a oferta)

“Fiquei chocado”, diz. “E então fiquei curioso: ‘O que está por trás de tudo isso?”

Na França, o YouTuber de ciência Léo Grasset recebeu oferta semelhante. A agência ofereceu 2 mil euros (cerca de R$ 12.200) por sua participação, dizendo que estava agindo por um cliente que desejava permanecer anônimo.

“É um grande indício de algo estava errado”, diz Grasset.

Grasset e Drotschmann ficaram revoltados com as falsas alegações que foram repassadas.

Eles fingiram estar interessados para tentar descobrir mais e receberam instruções detalhadas sobre o que deveriam dizer em seus vídeos.

Em um inglês que não parecia natural, o briefing os instruía a agir “como se você tivesse paixão e interesse neste tópico”.

Dizia para que eles não mencionassem que o vídeo tinha um patrocinador, e fingir que estavam dando conselhos espontaneamente por preocupação com os espectadores.

As plataformas de redes sociais têm regras que proíbem a não divulgação de que o conteúdo é patrocinado. Na França e na Alemanha, isso também é ilegal.

As instruções da Fazze pediam que os influenciadores compartilhassem uma notícia do jornal francês Le Monde sobre um vazamento de dados da Agência Europeia de Medicamentos.

Dados fora de contexto

A história era genuína, mas não falava em mortes por vacinas. Naquele contexto, no entanto, daria a falsa impressão de que as estatísticas da taxa de mortalidade vieram do vazamento.

Léo Grasset sentado em uma sala mal iluminada com um microfone à sua frente e vasos de plantas atrás dele. Ele está olhando diretamente para a câmera e com as sobrancelhas erguidas.

Léo Grasset
Léo Grasset ficou horrorizado com a tentativa de recrutá-lo

Os dados que os influenciadores foram solicitados a compartilhar foram, na verdade, uma mistura feita a partir de diferentes fontes e retirada do contexto.

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As “informações” usavam o número de pessoas que morreram em vários países algum tempo depois de terem recebido diferentes vacinas contra a covid-19. Mas só porque alguém morre depois de receber a vacina não significa que ela morreu porque recebeu a vacina. Ela pode ter morrido em um acidente de carro, por exemplo.

Nos países de origem das estatísticas, um número maior de pessoas havia recebido a vacina da Pfizer naquela época, portanto, era de se esperar um número maior de pessoas morrendo após a vacina da Pfizer.

“Se você não tem nenhum treinamento científico, você pode simplesmente dizer: ‘Ah, existem esses números, e eles são realmente diferentes. Portanto, deve haver uma ligação.’ Você pode fazer qualquer correlação espúria como quiser”, diz Grasset.

Os influenciadores também receberam uma lista de links para compartilhar: artigos duvidosos em que todos usavam o mesmo conjunto de números que supostamente mostravam que a vacina Pfizer era perigosa.

Quando Grasset e Drotschmann expuseram a campanha da Fazze no Twitter, todos os artigos, exceto a reportagem do Le Monde, desapareceram da internet.

Desde que Grasset e Drotschmann expuseram o convite, pelo menos quatro outros influenciadores da França e da Alemanha revelaram publicamente que também rejeitaram as tentativas da Fazze de recrutá-los.

Você viu?

‘Ilógico’

Mas o jornalista alemão Daniel Laufer identificou dois influenciadores que podem ter aceitado a oferta.

O primeiro, um YouTuber indiano chamado Ashkar Techy, que costuma fazer vídeos engraçados sobre carros e namoro. E o segundo, o brasileiro Everson Zoio. Ele tem mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, onde o vídeo sobre a Pfizer foi publicado, e 12,8 milhões no YouTube.

Everson Zoio, com óculos escuros redondos e um boné virado para trás, sentado no banco do motorista de um carro. A câmera está situada no banco do passageiro e Zoio está inclinado, com um braço apoiado no volante.

Everson Zoio
O YouTuber Everson Zoio alertou seus seguidores sobre a vacina da Pfizer em um vídeo que depois foi deletado de sua conta no Instagram

Os dois publicaram vídeos atípicos nos quais transmitiam a mesma mensagem da campanha da Fazze, compartilhando também links de notícias falsas que estavam nas instruções enviadas pela agência. Ambos também haviam participado de promoções anteriores do Fazze.

A BBC teve acesso ao vídeo publicado por Zoio em seu Instagram. Ele entra em um carro, olha para câmera e fala como se estivesse recitando um texto memorizado: “Galera, estou fazendo esse vídeo aqui para passar algumas informações que eu tenho sobre a vacinação, tá ligado?”, ele começa.

“Há algumas coisas que me deixam muito pensativo. Estive vendo alguns artigos e deparei com algo muito preocupante mesmo”, diz. Em seguida, afirma ter encontrado dados sobre a taxa de mortalidade dos vacinados pela Pfizer, que seria “três vezes maior que a da AstraZeneca”.

Ele diz não entender “por que essa vacina ainda está sendo comprada em vários países”. “Chega a ser algo ilógico e muito preocupante mesmo, vocês não concordam? A gente tem que se manter bem informados porque no final de tudo somos nós que vamos ser beneficiados ou até mesmo prejudicados por tudo isso.”

No final do vídeo de pouco mais de um minuto, ele pede que os seguidores acessem um link na biografia do seu perfil.

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Depois que Daniel Laufer os contatou, Everson Zoio e Ashkar Techy removeram seus vídeos, mas não responderam suas perguntas. A BBC tentou entrar em contato com os dois influenciadores, mas eles não responderam.

Conexões russas?

A BBC também tentou mandar um e-mail para as pessoas que abordaram Drotschmann e Grasset. Os e-mails voltaram – não da Fazze, mas do domínio de uma empresa chamada AdNow.

A Fazze faz parte da AdNow, uma empresa de marketing digital registrada na Rússia e no Reino Unido.

Ashkar Techy com um moletom vermelho sentado em uma cadeira de jogo roxa. À esquerda dele na imagem está uma captura de tela de um artigo que ele foi convidado a compartilhar. O artigo diz “Você gostaria de morrer por causa da covid-19 ou da vacina? - A Pfizer o ajudará a fazer uma escolha - A AstraZeneca publicou um relatório no qual a Pfizer atinge os recordes de mortalidade em pessoas vacinadas. ” Abaixo do título está uma tabela com os dados e abaixo dela está o início de uma notícia.

Ashkar Techy
O indiano Ashkar Techy compartilhou dados duvidosos em seu vídeo

A BBC fez várias tentativas de entrar em contato com a AdNow por telefone, e-mail e até mesmo uma carta enviada para sua sede em Moscou, mas eles não responderam.

Por fim, a BBC conseguiu entrar em contato com Ewan Tolladay, um dos dois diretores do braço britânico da AdNow.

Tolladay disse que tinha muito pouco a ver com a Fazze – que ele disse ser uma joint venture entre seu diretor – um russo chamado Stanislav Fesenko – e outra pessoa cuja identidade ele não conhecia.

Ele disse que não tinha participado da campanha de desinformação. E afirmou que nem sabia que a Fazze havia assumido o contrato antes de a história estourar. Ele não pode esclarecer quem era o cliente misterioso.

Ele disse que, à luz do escândalo, “estamos fazendo a coisa responsável e fechando a AdNow aqui no Reino Unido”. Ele disse que a Fazze também estava sendo fechada.

A BBC tentou convencer Fesenko a falar, mas não obteve sucesso.

As autoridades francesas e alemãs iniciaram investigações sobre as abordagens de Fazze aos influenciadores.

Mas a identidade do cliente misterioso da agência permanece obscura.

Há especulações sobre conexões russas com este escândalo e os interesses do Estado russo em promover sua própria vacina – a Sputnik V.

Omid Nouripour, porta-voz de política externa do Partido Verde alemão, sugeriu procurar em Moscou a motivação por trás da campanha da Fazze.

“Falar mal de vacinas no Ocidente mina a confiança em nossas democracias e supostamente aumenta a confiança nas vacinas da Rússia. Há apenas um lado que se beneficia com isso, e esse é o Kremlin”, ele afirmou.

Mas em um comunicado, a embaixada russa em Londres afirmou: “Tratamos a covid-19 como uma ameaça global e, portanto, não estamos interessados ​​em minar os esforços globais na luta contra ela, sendo vacinar as pessoas com a vacina da Pfizer uma das formas de lidar com o vírus.”

Embora a campanha de Fazze tenha sido um fracasso, Léo Grasset acredita que não será a última tentativa de usar o poder dos influenciadores sociais para espalhar a desinformação.

“Se você quer manipular a opinião pública, principalmente dos jovens, não vá à TV”, diz Grasset.

“Basta gastar o mesmo dinheiro com influenciadores no TikTok e no YouTube. Todo o ecossistema está perfeitamente construído para a máxima eficiência da desinformação.”

Fonte: IG SAÚDE

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Prevent Senior: como operadora investigada virou ‘única alternativa’ para idosos

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Prevent Senior: como plano de saúde investigado cresceu como 'única alternativa' para idosos
Thais Carrança – Da BBC News Brasil em São Paulo

Prevent Senior: como plano de saúde investigado cresceu como ‘única alternativa’ para idosos

A CPI da Pandemia ouve nesta terça-feira (28/9) a advogada Bruna Morato, que representa um grupo de 15 médicos da Prevent Senior. Eles elaboraram um dossiê no qual a operadora de planos de saúde é acusada de usar seus hospitais como “laboratórios” para estudos com medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento da covid-19.

Além da CPI, a Prevent Senior é investigada também pelo Ministério Público de São Paulo, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) – órgão do governo federal que regula o setor de planos de saúde – e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

A operadora de planos de saúde é suspeita de pressionar seus médicos a prescrever remédios sem eficácia comprovada para o tratamento da covid-19 ; ministrar esses medicamentos em alguns casos sem o consentimentos dos pacientes e seus familiares; e fraudar atestados de óbito, registrando mortes pelo coronavírus com outras causas.

Em depoimento à CPI da Covid na quarta-feira (22/09), o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista, negou as acusações e disse que o dossiê apresentado à comissão é fruto de dados roubados e manipulados. A empresa pediu que a Procuradoria-Geral da República investigue o caso.

Em meio a todas essas denúncias, a empresa enfrenta a maior crise de imagem desde sua fundação, em 1997.

No entanto, beneficiários insatisfeitos com acusações de má-conduta da companhia se veem numa sinuca de bico: praticamente não existem concorrentes que ofereçam planos para idosos na mesma faixa de preços da Prevent Senior em São Paulo, maior mercado para planos de saúde do país e região de foco de atuação da empresa.

Assim, analistas avaliam que, mesmo diante da sucessão de escândalos envolvendo a companhia, ela tende a ser pouco afetada em seu número de beneficiários – atualmente em 542 mil, segundo a ANS, o que coloca a operadora entre as dez maiores do Brasil.

Como os idosos clientes da Prevent chegaram nessa situação, de quase não terem alternativas no mercado de planos de saúde paulista? E como a empresa cresceu apostando nesse segmento desprezado pelas demais operadoras? Contamos aqui.

Diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista, presta depoimento na CPI

Edilson Rodrigues/Agência Senado
O diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista, compareceu à CPI da Covid no Senado e negou as acusações

História da Prevent Senior

A Prevent Senior foi fundada pelos irmãos Fernando e Eduardo Parrillo, que começaram a atuar no setor de saúde no negócio de remoção de pacientes por ambulância.

Fernando Parrillo falou sobre isso em entrevista publicada em 2007 na revista Memória Empresarial:

“Em 1996, surgiu a ideia da ambulância. Eu era o motorista, e o meu irmão, quando removíamos pacientes de UTI, ia como médico na parte de trás. Começamos dessa forma, com uma empresa chamada Remotion, quando percebemos que poderíamos exercer outra função. Em vez de fazermos a remoção, nós poderíamos ser a empresa que recebia os pacientes”, contou o hoje presidente-executivo da Prevent Senior.

O passo seguinte dos irmãos foi comprar uma clínica em Santo Amaro e criar um plano de saúde. Em seguida, eles decidiram investir numa estrutura própria, para que a clínica não dependesse mais das empresas de ambulância para fazer a remoção dos pacientes.

O próximo passo, segundo o empresário, foi criar um modelo de negócios focado na prevenção e no público com mais de 60 anos.

“Nessa fase, apareceu a oportunidade da compra de um hospital na Bela Vista [bairro da região central de São Paulo], que foi o grande salto da nossa vida”, contou Fernando Parrillo. Esse primeiro hospital foi inaugurado em 1997.

“Outra estratégia fundamental foi investir em publicidade pela televisão. Ainda não existia merchandising de operadora de saúde, e nós fomos os primeiros a entrar. Quando o meu irmão aparecia falando do nosso sistema em um programa vespertino, era uma loucura para atender todas as chamadas telefônicas.”

O modelo de negócios deu certo: a empresa viu seu faturamento saltar de R$ 449 milhões em 2011, para R$ 1 bilhão em 2014 e mais de R$ 4 bilhões em 2020. O lucro acompanhou essa trajetória ascendente, indo de R$ 33 milhões em 2011, para R$ 496 milhões no ano passado.

Por que a maioria das operadoras cobra preços exorbitantes dos idosos?

“A Prevent Senior é um caso único em seu segmento, que desafia a lógica do setor”, observava a XP Asset Manegment, em relatório de 2020.

“Apresenta majoritariamente beneficiários idosos, que a princípio oneram mais a rede devido à maior frequência de atendimentos, sobretudo dos mais complexos e internações, e ainda assim exibe margens de rentabilidade muito acima da média do setor.”

O comentário da gestora de recursos ajuda a entender por que os outros planos cobram preços proibitivos dos idosos – o que fez a Prevent se destacar ao cobrar mensalidades de em média R$ 800.

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“O preço tem a ver com risco na área planos de saúde”, explica Carlos Suslik, médico, consultor na área de saúde e ex-diretor executivo do Instituto Central do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo.

“A gente costuma dizer na área de saúde que a pessoa gasta 50% de tudo que ela gasta em saúde ao longo da vida no último ano de vida, porque é nesse último ano que em geral vem o ‘evento catastrófico’, como um câncer, um infarto, um AVC [acidente vascular cerebral]”, exemplifica o consultor.

“É muito difícil a gente morrer que nem um passarinho, que dorme, e no dia seguinte está morto. E, quanto mais velho a gente está, mais próximo estamos desse último ano de vida. Isso faz com que o custo da saúde do idoso seja muito maior”, justifica.

Idosa olhando pela janela

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A partir de 2004, lei proibiu planos de saúde de fazerem reajustes por faixa etária para pessoas acima dos 60 anos

A questão das faixas etárias para reajuste dos planos

Para Alessandro Acayaba de Toledo, presidente da Anab (Associação Nacional das Administradoras de Benefícios), um outro fator que leva aos altos preços dos planos de saúde para idosos é o fato de, a partir de 2004, com a entrada em vigor do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03), os planos de saúde terem ficado proibidos de fazer reajustes por faixa etária para pessoas acima dos 60 anos.

Até 2004, os planos tinham sete faixas etárias, sendo as últimas 50 a 59 anos, 60 a 69 anos e 70 anos em diante. Depois do Estatuto do Idoso, as faixas passaram a ser dez, mas a última delas é 59 anos ou mais.

A partir dessa idade, portanto, os planos não podem mais fazer reajuste por faixa etária, mas apenas o reajuste anual baseado na variação dos custos médico-hospitalares e na sinistralidade (número de vezes em que o plano de saúde é usado pelos pacientes).

“Por essa regra, o cara de 65 anos paga a mesma coisa que o cara de 85 anos. Isso faz com que o plano tenha que cobrar mais caro de todo mundo na média”, argumenta Suslik, que defende a volta das faixas adicionais para os idosos mais velhos.

Matheus Falcão, advogado do programa de Saúde do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), discorda da proposta e diz que a faixa única acima dos 59 anos foi estabelecida para proteger os direitos dos idosos.

“Conhecemos esse argumento, mas não concordamos com essa tese”, diz Falcão. “Foi estabelecida uma faixa só porque o Estatuto do Idoso veta a discriminação entre idosos. A proibição de que haja reajustes distintos é uma forma de proteger essa parcela da população”, considera.

Segundo o advogado, o mercado de planos de saúde é orientado pelo princípio do mutualismo, em que os setores mais jovens ajudam a financiar os mais velhos. “Você não pode individualizar o risco, isso quebra com a ideia do mutualismo. Se você permitir que as pessoas mais velhas recebam reajustes mais elevados, isso vai expulsando as pessoas nos níveis mais elevados e nada garantiria que as operadoras reduziriam o percentual de reajuste.”

Como a Prevent conseguiu então ser bem sucedida atendendo idosos?

Segundo dados da ANS, a Prevent Senior tem 76% de sua carteira de beneficiários composta por idosos, comparado a uma média de 14,2% do setor. A idade média dos pacientes da operadora é de 66,6 anos, contra média setorial de 35,8 anos.

O que garante à operadora menores custos do que a concorrência e permite a ela oferecer planos mais baratos aos idosos é a verticalização, jargão do mundo dos negócios para quando uma empresa controla as diversas etapas do seu processo, sem terceirizá-las para outras companhias.

“A empresa conseguiu com muito sucesso implementar uma estrutura muito vertical, centrando grande parte dos atendimentos e exames, dos simples aos complexos, em seus postos de atendimentos e rede própria de hospitais, conhecida como Sancta Maggiore”, diz a XP Asset no seu relatório.

Suslik explica que o uso da rede própria permite à empresa um maior controle dos custos.

“Na rede própria, você consegue regular o uso de exames, de laboratórios, de internações, o tempo de internação, porque a rede é sua”, diz o consultor, lembrando que outras operadoras também têm redes próprias, como NotreDame Intermédica, Hapvida e Unimed, no Brasil, e a Kaiser Permanente, no mercado americano.

Outro fator que reduz o custo da Prevent, segundo o ex-diretor do HC, é a regionalização.

“Se um paciente da Prevent de São Paulo passar mal em Manaus, ele não tem cobertura – quem compra sabe disso. Isso reduz custos porque, para ter uma cobertura nacional, é preciso credenciar serviços no país inteiro, para um número de pacientes muito pequeno, então o preço para credenciar é muito mais alto, porque você não tem poder de barganha”, explica.

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O problema desse modelo baseado em rede própria e regionalização é a dificuldade de escalar o negócio. Isso explica por que somente em 2020 a Prevent Senior expandiu sua atuação para o Rio de Janeiro, ainda restrita à capital fluminense.

Plano individual ou coletivo?

Outra peculiaridade do modelo de negócios da Prevent é apostar quase que exclusivamente em planos individuais ou familiares, quando a maioria do setor prefere os planos coletivos, que são aqueles oferecidos por empresas ou associações de classe, como os sindicatos.

Segundo a ANS, a Prevent tem 94,5% de beneficiários em planos individuais ou familiares e somente 5,5% em planos coletivos. No setor em geral, 81,4% dos beneficiários estão em planos coletivos.

“A diferença é que, nos planos individuais, a definição do reajuste é feita pela própria ANS – recentemente, numa decisão inédita da agência, teve até um reajuste negativo. Enquanto isso, nos planos coletivos, há uma liberdade de reajuste entre as empresas contratantes”, explica Toledo, da Anab.

“Historicamente, o índice de reajuste aplicado aos planos individuais é inferior àquele aplicado aos planos coletivos, então as operadoras já há muito tempo desestimularam a comercialização de planos individuais e passaram a ter oferta maior de planos coletivos.”

Aqui, novamente, o representante do setor de planos de saúde defende que uma menor regulação pela ANS poderia aumentar a competição no segmento de planos individuais, dando mais opções aos consumidores. E aqui, também de novo, o advogado do Idec discorda.

“No entendimento do Idec, a solução seria que a regulação se estendesse também para os planos coletivos”, diz Falcão, do instituto de defesa do consumidor. “O problema não está na regulação dos planos individuais, está na falta de regulação dos planos coletivos, que permite às operadores cobrarem aí preços mais elevados.”

Para o advogado, o que poderia reduzir custos no setor de planos de saúde e permitir uma maior oferta de serviços para os idosos seria uma maior transparência nos custos das operadoras, o que beneficiaria empresas e consumidores, na sua visão.

Idosos sem alternativa

O resultado desse modelo único criado pela Prevent e da falta de competição no segmento em que ela atua é que seus pacientes não têm muita opção, se ficarem descontentes.

“Se eu não tenho outra opção, ou a outra opção é pior, eu fico onde estou, é basicamente isso”, diz Suslik.

Ele também descarta que as concorrentes tentem aproveitar a crise de imagem da empresa para abocanhar parte do seu filão. “Esse modelo que eles fizeram é muito difícil de copiar, eles são muito especializados na terceira idade e são muito bons nisso. Mesmo quando o [ex-ministro da Saúde Luiz Henrique] Mandetta criticou a empresa, e eles também tiveram uma perda de imagem, aumentou o número de pacientes”, exemplifica o consultor.

Ele faz referência a episódio ocorrido em março de 2020, quando o então ministro acusou a Prevent Senior de promover “aglomeração de idosos”, num momento em que a rede era destaque no noticiário pelo número elevado de mortes por covid-19 em seus hospitais.

Hidroxicloroquina

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Plano de saúde é acusado de usar irregularmente em sua rede o chamado ‘kit covid’

Toledo, da Anab, avalia que a situação da empresa poderia se complicar mais, caso as diversas investigações em andamento sobre a Prevent se estendam do âmbito da pandemia para outras práticas. Mas também avalia que as opções dos idosos são restritas.

“A partir dessas denúncias de impulsionamento do ‘kit covid’, da hidroxicloroquina e outras coisas mais, por talvez ser um tratamento mais em conta, mais barato, isso chama a atenção das autoridades e pode eventualmente ter desdobramentos para saber se esse tipo de prática se replicava em outros modelos de atenção e assistência às pessoas”, afirma.

O representante lembra que uma pesquisa do Instituto Vox Populi, encomendada pelo IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) e divulgada em junho deste ano, mostrou que ter um plano de saúde é o terceiro maior desejo do brasileiro, atrás de casa própria e educação.

“É claro que os idosos que tem lá seu dinheirinho querem ter uma assistência médica privada de qualidade, mas muitas vezes não cabe no bolso deles. Aí a Prevent Senior acaba apresentando uma solução com custo benefício interessante. O fato de ela estar no centro da CPI arranha, é claro, a imagem da empresa, mas, no fim do dia, as pessoas nessa faixa etária não têm uma outra opção.”


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Fonte: IG SAÚDE

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