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População de idosos não é único fator que explica mais mortes por Covid-19

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BBC News Brasil

Caixão com corpo de homem de 53 anos no Rio de Janeiro

Reuters
Idade da população não é o único fator que explica mortes por coronavírus de um país

“Tem que ter calma, a população tem que ir entendendo aos poucos o que é esse vírus. Ele é realmente muito perigoso para quem tem uma certa idade, para quem tem uma doença. Para a juventude não tem esse perigo todo.”

É pouco provável que ao fazer esta declaração o presidente Jair Bolsonaro tenha se inspirado num artigo, publicado no início de maio, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), no qual os autores disseram que um maior número de mortes por covid-19 era esperado em países com populações mais envelhecidas.

Quase um mês depois da fala do presidente, no entanto, pesquisadores internacionais liderados pela pesquisadora brasileira Marília Nepomuceno, do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica, na Alemanha, publicaram na mesma revista um texto em que discordam dessa ideia – a edição veio a público no dia 23 de junho.

“Esta conclusão se baseou em um exercício no qual os autores replicaram as taxas de letalidade por covid-19 da Itália, que é um país de alta renda e envelhecido, em nações de renda mais baixa e com populações mais jovens, como é o caso do Brasil”, explica ela.

Marília Nepomuceno, do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica

Arquivo pessoal
Estudo foi liderado pela brasileira Marília Nepomuceno

De fato, de acordo com Nepomuceno, as taxas de letalidade são maiores em idades mais elevadas. “Mas os autores publicaram um exercício simplista”, diz.

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“Não consideraram diferenças importantes entre os países, como por exemplo, as diversidades sociais, econômicas e epidemiológicas, que podem afetar o perfil etário dessas taxas. Idade é uma variável importante para entender a pandemia de covid-19, mas não pode ser analisada sozinha.”

Segundo Marília, a faixa etária deve ser analisada juntamente com variáveis que contextualizam cada país, como por exemplo, condições de saúde, desigualdades socioeconômicas, acesso a serviços médicos, composição das famílias, condições sanitárias, o privilégio de seguir as medidas de prevenção e distanciamento social, dentre outras.

Por isso, ela diz que o escopo de análise da demografia vai além dos efeitos de variações na estrutura etária.

“Essa é uma visão muito reducionista da área de estudos populacionais, que deve se preocupar não apenas com variações dos eventos entre grupos de idade mas também em cada um deles, ao longo do tempo e entre gerações”, explica.

“Para isso, os demógrafos examinam inúmeras outras variáveis de interesse para a sociedade e que no caso da covid-19 podem ajudar a explicar as diferenças no número de casos e de mortes.”

Homem caminha sem máscara em Ceilândia

Reuters
‘Fatores contextuais, e não apenas a idade, devem ser considerados para um bom entendimento da pandemia no Brasil’, diz pesquisadora

Marília alerta que uma abordagem que considera apenas a estrutura etária populacional para entender um fenômeno tão complexo como a pandemia de COVID-19 pode não ser suficiente para compreender todo o fenômeno”, diz.

“Fatores contextuais, e não apenas a idade, devem ser considerados para um bom entendimento da pandemia no Brasil.”

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Contexto populacional

População total

  • Itália: 60,36 milhões (2019)
  • Brasil: 209,5 milhões (2018)
  • Nigéria: 195,9 milhões (2018)

Porcentagem de pessoas vivendo acima dos 60 anos

  • Itália: 29,8%
  • Brasil: 14,1%
  • Nigéria: 4,5%

M ortes abaixo dos 60 anos

  • Itália: 5% (10 de julho)
  • Brasil: 30% (14 de julho)
  • Nigéria: informação não desagregada por idade

Isso porque vários fatores demográficos, sociais, econômicos e governamentais podem explicar as variações entre países. Para exemplificar isso, o grupo, que inclui pesquisadores brasileiros, do Canadá e da Alemanha, analisou diferenças entre as condições de saúde associadas a mortalidade por covid-19 no Brasil e Nigéria em relação à Itália.

“Constatamos que as altas prevalências de doenças crônicas entre os adultos brasileiros, por exemplo, podem aumentar a vulnerabilidade desta população, com potencial para compensar parte dos benefícios da idade mais jovem.”

Marília não quis comentar a declaração de Bolsonaro. “Nosso trabalho é estritamente científico.”

“Os resultados publicados, já apontados anteriormente, fazem parte de uma discussão complexa, que envolve muitos fatores simultâneos e que precisarão ser analisados ao longo dos próximos anos, até que toda a dinâmica da doença seja conhecida. Nesse sentido, preferimos não fazer avaliações conjunturais, qualificar opiniões e declarações, a partir do artigo.”


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Fonte: IG SAÚDE

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Momento Saúde

Psicóloga acompanha visitas virtuais de pacientes com Covid-19: são 5 minutos

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Ingrid Rosi
Reprodução/Arquivo pessoal

Ingrid Rosi é psicóloga hospitalar e auxilia a saúde mental de pacientes na UTI

A rotina da psicóloga hospitalar Ingrid Rosi ganhou novas demandas desde o início da pandemia. Apesar de já experiente no atendimento aos pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva , Ingrid tornou-se, também, responsável por uma das etapas mais importantes na manutenção da saúde mental de pacientes isolados com a Covid-19: as visitas virtuais, único momento de contato com a família. 

“Todos os dias eu me paramento com o equipamentos de proteção e visito cada um dos leitos com um tablet na mão. As visitas duram cinco minutos”, explica. A profissional de saúde, que precisa acompanhar o momento, vê então a rotina de trabalho misturar-se aos detalhes da vida de cada paciente grave. “Não tem como não criar vínculo. Eles me chamam para ver o cachorro da família, eu ouço as vozes de pais, mães, irmãos…”, diz. 

Com emoção, Ingrid conta dos momentos mais fortes que já viveu na função: “o melhor que já vivi foi a primeira vez que uma família viu o paciente após sair do tubo. Ele passou por um período grave em que não conseguia falar e, após recuperar-se, nós providenciamos a visita. A comemoração foi muito emocionante”, conta.

Já o momento mais triste de que se lembra, foi uma despedida. “O quadro do paciente já era extremamente grave e a família pediu para vê-lo. Eles queriam dizer que a missão dele estava cumprida”. Despedidas como essa, conta Ingrid, são fundamentais em um momento em que os ritos tradicionais estão proibidos. 

“Todas as vezes em que o médico informa a notícia do óbito, eles perguntam ‘mas eu não vou poder ver ele? nem um pouquinho?’ essa é a realidade das inúmeras famílias enlutadas pela Covid . Provoca um vazio no peito e um desespero. Dói”, descreve a profissional de saúde. 

A psicóloga também avalia a importância do contato, mesmo que com os devidos limites, entre o paciente e a família. “O paciente de UTI precisa enfrentar momentos muito solitários. Além de não receber visitas, ele também não vê as pessoas de forma normal. Estamos sempre cobertos dos pés à cabeça, eu e a equipe inteira. Eles só enxergam nossos olhos e isso aumenta o sentimento de solidão”, conta. 

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“Chega então a hora da visita e quando eles têm essa oportunidade, eles dão um valor imenso! cinco minutos parece pouco quando estamos conversando, mas quando é o tempo de saber se o seu parente está bem, é o tempo mais precioso do mundo”, defende Ingrid. Ela explica que o tempo reduzido, de 5 minutos por paciente, foi estabelecido pela equipe como forma de garantir que todos tenham direito à visita diariamente. 

Envolvida no trabalho desde março deste ano, Ingrid reforça o envolvimento de toda a equipe médica com a recuperação dos casos. “Nós torcemos para cada alta, nós vibramos em cada boletim de melhora, assim como não deixa de ser um sofrimento imenso quando perdemos um paciente para a doença. Essa doença destrói a família e os sonhos, mas destrói a equipe também”, explica a psicóloga.

Ao avaliar a perspectiva das relações depois da pandemia, Ingrid diz que – apesar do contexto extremamente doloroso – algumas lições ficarão vinculados a quem vive esse momento de perto. “Eu acredito que as pessoas vão valorizar mais o contato social, o abraço, o beijo, a liberdade de sair, reunir os amigos e a família. O que nós temos é o agora”, finaliza. 

Fonte: IG SAÚDE

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