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“As pessoas precisam começar a estudar sobre o nanismo”, diz modelo e ativista

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Rebeca Costa, 28, afirma que a moda inclusiva ainda falha em incluir corpos com nanismo
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Rebeca Costa, 28, afirma que a moda inclusiva ainda falha em incluir corpos com nanismo

No mês de maio deste ano, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) realizou uma apresentação para lançar os uniformes que seriam usados pela delegação brasileira para disputar os Jogos Paralímpicos de Tóquio . Entre as pessoas que desfilaram e representaram o país no evento estava Rebeca Costa, influenciadora digital e modelo com nanismo.

Ativista pela causa, Rebeca diz que desfilar pelo próprio país com o uniforme oficial foi um marco. Ao iG Delas , ela conta que não sentia esse frio da barriga desde que participou de um desfile inclusivo no São Paulo Fashion Week, em 2019. “Foi um marco porque era uma das primeiras vezes que vi um trabalho que abraçou todos os corpos, cada um com sua identidade. Foi um dos meus trabalhos mais emocionantes por representar o país inteiro”, afirma.


Nos últimos anos, marcas de moda têm se voltado para contemplar a diversidade de corpos e conquistar um mercado mais igualitário e acessível para todas as pessoas. Apesar da validade deste movimento, os corpos com nanismo são frequentemente deixados de fora. Estima-se que, no Brasil, 1 em cada 10 mil habitantes tenha algum tipo de nanismo e todas enfrentam barreiras para encontrar peças adequadas e pensadas para elas.

Desde 2015, a modelo toca o projeto Look Little, em que presta consultorias para negócios e para famílias de pessoas com nanismo, além de dar palestras sobre o assunto. Semanalmente, ela recebe cerca de 250 e-mails que buscam por consultoria de moda ou apoio em projetos, mas que tendem a não ser inclusivos o suficiente para essa demanda.

A busca é sempre focada em pessoas com acondroplasia, o tipo mais comum de nanismo. No entanto, a modelo reforça que existem mais de 400 tipos de corpos com nanismo que acabam sendo esquecidos e têm suas particularidades não enquadradas. “As pessoas precisam colocar a mão na massa, sair da zona de conforto”, explica.

A ativista afirma que é muito questionada sobre lançar uma marca própria de roupas, algo que está em seus planos, mas que requer muitos estudos. Para alcançar a inclusão, ela trabalha ao lado de profissionais diversos, tanto da medicina como dos setores burocráticos da moda, para poder pensar na identidade da marca e nas peças. “Estamos coletando estatísticas para que, juntas, formem uma fórmula mediana que atenda a, pelo menos, 60% dos corpos”, detalha.

“Eu não quero fazer algo exclusivo porque isso é muito fácil de fazer: é só eu chegar aqui e aceitar várias propostas de parcerias que recebo, só que eu serei incoerente com o meu próprio discurso. É muito fácil para mim, sei todas as minhas medidas e a de corpos como o meu, mas e o resto? O restante fica à deriva da moda”, acrescenta.

Cada pessoa com nanismo tem suas características

Quando a Look Little nasceu, em 2019, a intenção era postar para os seguidores looks do dia e peças com adaptações. Por meio disso, Rebeca queria desmistificar o nanismo e educar seus seguidores sobre a comunidade. Hoje, a página de seu Instagram, onde continua compartilhando sua rotina, soma mais de 64 mil vidas — palavra pela qual a ativista prefere chamar seus seguidores.

Para ela, esse movimento é importante para conseguir desmentir a lente pela qual a mídia, por muito tempo, apresentou para as pessoas sobre o nanismo. “A mídia fala sobre fetiche, sobre humor e sobre vitimismo. Não há nada de errado se uma pessoa opta pelo fetiche ou pelo nanismo, acontece que as pessoas me correlacionam a essas só porque eu tenho as mesmas condições físicas”, afirma.

A ótica do fetichismo faz com que mulheres com nanismo sejam sempre vistas como objetos sexuais. Rebeca lembra de uma vez em que estava em um ônibus com roupas sociais e, ao descer do veículo, uma passageira correu atrás dela para dizer que um homem estava filmando o movimento de seus glúteos.

Além da objetificação, Rebeca explica que elas estão mais propensas a relacionamentos abusivos e a desconfiança por parte da pessoa com quem se relacionam. “Nunca me coloquei em um lugar de fetiche, mas, de todos os meus relacionamentos, eu não coloco a mão no fogo porque não sei se houve ou não da pessoa. As mulheres com nanismo pisam muito em ovos quando o assunto é relacionamento. Fiz de mim uma rocha por isso”, afirma.

Por conta da estatura física, é comum ainda que as pessoas com nanismo sejam infantilizadas. Com isso, é comum que elas sejam subestimadas no ambiente de trabalho e, em casa, os pais sentem dificuldade de se desprender do filho — este último, um tipo de reclamação que é muito comum em adolescentes atendidos pela ativista.

Por falar em família, é esse núcleo um dos que mais procuram Rebeca. Geralmente são pais e mães que descobrem que seus filhos foram diagnosticados com nanismo. Primeiro, ela cria uma rede de acolhimento e de informação para mostrar que a fase do luto não é necessária.

No entanto, o amparo vem com um alerta. “Eu costumo dizer para as mães e pais que o filho deles não vai ser igual a mim. Ele tem o tempo dele e eu tive o meu. O laudo médico pode ser o mesmo e o CID [Código Internacional de Doenças] também, mas nenhum ser humano é igual o outro”, afirma.

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Acessibilidade e representatividade

Em uma passarela, a maioria esmagadora das pessoas desfilando são altas, como manda o manual. Mesmo com a efervescência da diversidade na moda, as pessoas com nanismo ainda não estão presentes nesse espaço — assim como também estão fora dos filmes e das novelas, por exemplo. “Se estão presentes na televisão, é sempre pelo viés humorístico”, ressalta Rebeca.


A falta de representatividade, para ela, está muito ligada às visões estereotipadas do nanismo, que acabam limitando os indivíduos. “Não tem a ver com inclusão, mas tem a ver com respeito. Incluso todos nós já estamos, estamos fazendo nosso papel, mas precisamos ter respeito e reconhecimento”, afirma.

O cenário também não é favorável quando o leque se expande e passa a olhar também para termos de acessibilidade e de políticas públicas. Rebeca afirma que esse é um campo praticamente inexplorado. “Dentro do ramo de políticas públicas e de acessibilidade, nós somos meros herdeiros de outros tipos de deficiência”, afirma.

Como exemplo, Rebeca exemplifica o caso com a Lei Municipal n°3278/2017, de Niterói, no Rio de Janeiro, que torna obrigatória o rebaixamento ou a colocação de escadas em frente a caixas eletrônicos de bancos. “Até hoje não foi resolvido, pagam multa atrás de multa porque preferem pagar do que fazer”, afirma.

“Isso é algo que freia muito a minha liberdade porque eu não posso chegar no banco e sacar meu dinheiro. Os caixas eletrônicos que dizem ser adaptados são muito para trás. O braço de um cadeirante alcança, o meu não. Então, as pessoas têm que nos reconhecer e nos respeitar. Eu não sou herdeira, eu não vim aqui de passagem”, acrescenta.

Seja na moda ou em relação a políticas públicas de acessibilidade, Rebeca afirma que reconhecimento, respeito e empatia são pilares fundamentais para compreender as demandas das pessoas com nanismo. “As pessoas precisam começar a estudar sobre o nanismo, a entender e a se permitirem desconfigurar tudo aquilo que lhes foi apresentado”, diz.

Fonte: IG Mulher

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Opinião: Obesidade não deveria ser considerada doença

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Thais Carla, Ellen Valias, Luana Carvalho, Jéssica Balbino, Juno Vecchi, Gabi Menezes, Malu Jimenez e Agnes Arruda: veja ativistas gordas para seguir abaixo
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Você sabia que a ideia de obesidade como doença foi construída a partir de um paradigma científico patriarcal e mercadológico? Esse mesmo estigma nos vendeu, há alguns anos, que pessoas LGBTQIA+ eram doentes. Hoje, os Estudos do Corpo Gordo defendem que nem todo corpo gordo pode ser considerado doente , por isso, rechaçam o uso da palavra obesidade para se referir à totalidade destes corpos. Pessoas gordas são apenas gordas. O marco da balança não é capaz de definir se a pessoa tem coração saudável, índices de glicose, etc.

Um estudo publicado esta semana pela revista científica Science MAG  dá conta que obesidade nem sempre significa problemas de saúde. “Há muitas pessoas classificadas como obesas e que não têm nenhum sinal de doença e vivem uma vida longa e saudável”, afirma à publicação o fisiologista Lindo Bacon, autor e defensor da positividade corporal e professor da Universidade da Califórnia. 

Bacon considera que o peso em si não é um fator determinante em doenças. Para o especialista, marcadores como condição social, discriminação e acesso a alimentos saudáveis são mais decisivos em relação à saúde das pessoas. Ele cita ainda estudos que atestam que pessoas gordas sem problemas metabólicos geralmente têm maior nível de escolaridade e têm melhores condições socioeconômicas do que as consideradas obesas com problemas de saúde.

Em março de 2020, um estudo publicado pela Nature Medicine  indica que a comunidade médica precisa urgentemente rever a ideia de patologização dos corpos gordos. O estudo demonstra como esse atendimento negligente, moralista e preconceituoso traz consequências graves para as pessoas gordas, como ansiedade, isolamento social, estresse, transtornos alimentares e suicídio, por exemplo. O estudo atesta que estas, sim, são doenças relacionadas diretamente à gordofobia, preconceito contra pessoas gordas.

Outro estudo é o “Obesidade em adultos: uma diretriz de prática clínica”, assinado por mais de 100 profissionais de saúde canadenses, publicado pela renomada Revista CMJA Open, que pede a revisão imediata do CID da obesidade e sugere sua exclusão . O documento propõe uma maneira mais humana para tratar os corpos gordos, considerando suas variações e necessidades, não o número de Índice de Massa Corporal (IMC) – formado por apenas duas variáveis: peso e altura. A medida é tão ultrapassada quanto a que, em tempos de eugenia, era usada para medir o crânio de pessoas negras e atestar violências contra estes corpos, acusando-os de serem menos saudáveis ou capazes.

Em 2013, a American Medical Association (AMA), decidiu classificar a obesidade como doença. Porém, antes da reunião, a associação pediu ao seu Comitê de Ciências e Saúde Pública para exemplificar a questão e o grupo trouxe um grande documento sugerindo que a obesidade não fosse oficialmente nomeada doença. No documento,  especialistas ressaltaram que não havia sintomas reais para que a questão fosse realmente considerada uma doença. Além disso, a medicalização da obesidade poderia ser danosa para as pessoas gordas, criando mais estigma e colocando-as em tratamentos desnecessários.

De acordo com o livro Nutrição Comportamental, os membros da AMA ignoraram as recomendações do comitê e argumentaram que o rótulo de doença traria mais benefícios do que danos. A questão econômica também falou alto, pois, caso o programa governamental de saúde americano reconhecesse a obesidade como doença, as pessoas passariam a ser elegíveis para tratamento e os médicos poderiam cobrar mais ao atendê-los.

Apesar de a obesidade ter sido considerada doença para que as pessoas recebessem tratamento adequado e para diminuir o estigma sobre os corpos gordos, o preconceito só piorou. Hoje, as pessoas gordas são ainda mais negligenciadas pelos profissionais da saúde .

A gordofobia médica é um problema vivenciado pela maior parte das pessoas gordas . Além da falta de aparelhos e objetos acessíveis, há muitos relatos de descaso dos próprios profissionais de saúde, sobretudo médicos, o que acaba gerando consequências graves na vida de uma pessoa gorda , inclusive um ciclo de não-cuidado.

O CID de doença (CID 10 E66) hoje nada mais é que uma ferramenta de poder da medicina para controlar, perseguir e invisibilizar os corpos gordos.

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Existe muita gente falando sobre isso. Confira abaixo oito perfis de ativistas para acompanhar.








O que é gordofobia? Entenda o que é esse preconceito e descubra as diversas indústrias que lucram com a insatisfação corporal ‑ sobretudo das mulheres ‑ e com os padrões de beleza.



Como combater a gordofobia? Empatia, conhecimento e despatologização do corpo gordo: saiba como lutar contra esse preconceito e contra esse estigma social que está institucionalizado na nossa sociedade. 


Todo gordo é doente ou come muito? A nutricionista Júlia Criscoullo responde essas perguntas de forma bem rápida e simples.


*A jornalista Naiana Ribeiro é ativista gorda e editora da PLUS, primeira revista para gordas do país

Fonte: IG Mulher

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