POLÍTICA NACIONAL

Ala bolsonarista aguarda efeitos da prisão de Ribeiro nas pesquisas

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Jair Bolsonaro e Milton Ribeiro
Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

Jair Bolsonaro e Milton Ribeiro

Um dia após a prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, o Palácio do Planalto ainda tenta estimar o tamanho do estrago causado pelo caso na campanha à reeleição de Jair Bolsonaro. O entorno do presidente aguarda com apreensão a nova pesquisa Datafolha desta quinta-feira.

O levantamento ainda estava sendo feito quando o ex-integrante do governo foi preso pela Polícia Federal, em investigação que apura suspeitas de desvio de verbas no MEC. A avaliação é de que o episódio atinge uma das principais bandeiras bolsonaristas, o discurso anticorrupção.

A preocupação do núcleo da campanha é que o escândalo envolvendo Ribeiro dificulte ainda mais a recuperação de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto nos quais ele perde em todos os cenários para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

No último levantamento do Datafolha, no fim de maio, o petista tinha 48% da preferência dos eleitores contra 27% de Bolsonaro. Coordenadores do projeto de reeleição de Bolsonaro, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), esperavam que atual chefe do Planalto já estivesse encostando em Lula em julho. A cem dias do primeiro turno das eleições, os respingos da prisão de Ribeiro se somam a outros obstáculos que o grupo tentava tirar da frente para impulsionar a campanha, como o novo aumento no preço dos combustíveis, nesta semana, e a alta da inflação.

A estratégia era tentar emplaca que as dificuldades econômicas são um fenômeno mundial devido a pandemia da Covid-19 e da guerra da Ucrânia, mas que, ao menos, o atual governo não tem escândalos como os das gestões petistas.

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Em outra frente, Bolsonaro seguia apostado nos casos corrupção dos governos do PT para se contrapor ao ex-presidente. Na tentativa de salvar essa narrativa, o presidente, que chegou a dizer que colocaria a “cara no fogo” por Ribeiro, vai passar a defender a investigação e uma punição exemplar ao ex-ministro, caso sejam comprovadas as suspeitas de corrupção na basta. A ideia é tentar apresentar Bolsonaro como implacável contra crimes mesmo que tenha que “cortar na própria carne”.

O episódio também será utilizado como argumento de que a Polícia Federal tem uma atuação independente e que o presidente não tenta interferir nos rumos das investigações. Bolsonaro foi acusado pelo ex-ministro Sergio Moro de interferir na PF, mas o inquérito concluiu que não houve crime.

Blindagem

Essa estratégia para blindar Bolsonaro e tratar a prisão de Milton Ribeiro como um “caso isolado” começou a ser colocada em prática na noite de ontem. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), coordenador da campanha de reeleição do pai, divulgou um vídeo dizendo que há uma “tentativa de usar eleitoralmente” a suspeita sobre o ex-ministro da Educação, enquanto Bolsonaro “trabalha dia e noite para reduzir o preço do combustível, para reduzir o preço da comida”. A gravação foi feita após reunião de Flávio no Palácio do Planalto com o pai.

“A oposição tenta usar isso eleitoralmente e colocar o Bolsonaro na mesma prateleira do Lula, o que é impossível porque o Lula é o maior ladrão da história do nosso país. Olha a diferença de postura. Enquanto o Bolsonaro ele afasta o ministro, a PF faz a investigação isenta, independente, sem interferência; os governos passados, como aconteceu no caso da Dilma, ela tenta promover o Lula a ministro para que ele não fosse preso por corrupção”, disse o senador.

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Ainda sem saber o conteúdo da decisão que levou à prisão de Ribeiro, integrantes do governo adotaram a cautela para tratar o assunto ao longo de todo o dia de ontem. A ordem era evitar fazer defesa de Milton Ribeiro. O receio é que a investigação pudesse revelar gravações do ex-ministro da Educação ou movimentações financeiras que corroborem as suspeitas de crime envolvendo da distribuição de recursos do MEC para prefeituras.

“O governo está muito tranquilo. Esperamos que as investigações aconteçam de uma forma isenta e que o ex-ministro Milton possa prestar os esclarecimentos porque o que todos nós sabemos até agora é que foi o próprio ex-ministro que denunciou à CGU que havia a suspeita de que algo errado poderia estar acontecendo em seu ministério. Foi o próprio ex-ministro que, em seu primeiro depoimento, colocou no papel que o presidente Bolsonaro não tem absolutamente nada a ver com as suspeitas que estão recaindo sobre ele nesse momento”, completou Flávio no vídeo.

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POLÍTICA NACIONAL

Corrupção no MEC: aliados de Bolsonaro tentam desqualificar áudios

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Corrupção no MEC: aliados de Bolsonaro tentam desqualificar áudios
Reprodução: redes sociais – 06/04/2022

Corrupção no MEC: aliados de Bolsonaro tentam desqualificar áudios

A divulgação de  áudios do ex-ministro Milton Ribeiro em que afirma ter sido informado pelo presidente Jair Bolsonaro sobre buscas e apreensões em sua casa desencadeou uma reação coordenada de aliados do governo para abafar o caso. A estratégia adotada é a de dizer que, na  ligação à sua filha, Ribeiro afirma que Bolsonaro está “com pressentimento” sobre a operação. O argumento utilizado por estes interlocutores do presidente é de que a intuição presidencial “não é crime”.

Enquanto aguardavam com apreensão a divulgação completa dos áudios e mensagens interceptadas do ex-ministro e pastores lobistas, o núcleo da campanha de Bolsonaro se antecipou ontem e passou a questionar o fato de os autos do inquérito não terem sido enviados antes ao Supremo Tribunal Federal (STF). A conversa de Ribeiro com a filha em que ele cita a ligação do presidente é de 9 de junho, 13 dias antes de a operação ser deflagrada.

O mesmo argumento deve ser usado pela defesa de Ribeiro para tentar cancelar o caso na Justiça enquanto os estrategistas da campanha traçam uma nova reação para blindar Bolsonaro e o projeto da reeleição. Segundo um auxiliar, é preciso ter acesso a todo o conteúdo da investigação para avaliar “friamente” as consequências das gravações. Interlocutores do Planalto admitem o mau momento para o presidente a menos de cem dias do primeiro turno das eleições.

Como reação à nova crise e com a possibilidade de abertura de uma CPI da Educação, o núcleo duro da campanha colocou em prática o plano de aumentar o Auxílio Brasil para R$ 600. Com Bolsonaro estagnado nas pesquisas de intenção de voto, a ideia já vinha sendo defendida pela cúpula da campanha, mas a operação da Polícia Federal impulsionou o aval do presidente ao aumento. A avaliação é que aumento do benefício deixará a crise do MEC em segundo plano.

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A estratégia era criar um fato novo para interromper a agenda negativa de Bolsonaro, que incluía os ataques às urnas, a crise na Petrobras e as mortes do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips na Amazônia. Todavia, a divulgação dos áudios que fazem referência ao presidente da República atrapalhou a reação desenhada pelo governo.

Nas redes sociais, aliados do presidente também colocaram em prática a conhecida estratégia de desviar a atenção para outros assuntos, frequentemente sobre valores morais. No caso dos áudios de Milton Ribeiro, eles preferiram repercutir a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou nesta sexta-feira o direito ao aborto legal no país.

A estratégia, porém, não chegou a tempo. Levantamento da consultoria Arquimedes identificou 437 mil publicações sobre o Ministério da Educação e sobre Ribeiro entre o dia de sua prisão, na quarta, e hoje até as 15h. A maior parte das manifestações (65%) veio de perfis mais à esquerda, cujo discurso principal foi tentar relembrar o vínculo do ex-ministro com a primeira-dama Michele e também a defesa enfática feita por Bolsonaro no início das investigações, quando disse que colocaria sua cara no fogo pelo ex-ministro.

“É um duro golpe na campanha de Bolsonaro, que tem o desafio de atrair o eleitor anti-petista. Um dos seus principais argumentos se baseia na questão da corrupção e ter seu nome vinculado ao caso do ministro Milton Ribeiro dificulta seu caminho. Por mais que sua base tente dar uma narrativa positiva, o alcance fica limitado aos apoiadores já convertidos”, conclui o diretor da Arquimedes, Pedro Bruzzi.

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‘Cheirando a sacanagem’

A estratégia de questionar a validade da investigação foi levada a cabo ontem pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em uma rede social, ele criticou a decisão do juiz federal Renato Borelli, da 15ª Vara Federal do Distrito Federal que determinou a prisão do ex-ministro, mesmo com a citação ao titular do Palácio do Planalto. Coordenador da campanha de reeleição do pai, Flávio disse “tá cheirando a ‘sacanagem’, além de crime, claro.”

“Então havia gravação do ex-ministro falando que ‘ele’ achava que poderia ter busca e apreensão? Se ‘ele’ era Bolsonaro, porque o juiz e o procurador do Ministério Público Federal não remeteram os autos ao Supremo Tribunal Federal ao invés de prender o ex-ministro. Tá cheirando a ‘sacanagem’, além de crime, claro”, escreveu Flávio em seu perfil na rede social.

Horas após a divulgação do áudio, o advogado Frederick Wassef, que defende o presidente, foi até o Palácio do Planalto para falar com jornalistas e rebater as suspeitas de que Bolsonaro teve acesso antecipado à investigação.

“Se o ex-ministro usou o nome do presidente Bolsonaro, usou sem seu conhecimento, sem sua autorização. Ele que responda. Compete ao ex-ministro explicar o que ele fala”.

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