Vice-governador promete ação conjunta entre Estado e município para enfrentar o colapso no abastecimento, critica gestões anteriores e afirma que acesso à água é questão de dignidade humana
A crise crônica de abastecimento de água em Várzea Grande entrou definitivamente na agenda política de Mato Grosso. Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, o governador em exercício, Otaviano Pivetta (Republicanos), anunciou que o Governo do Estado prepara uma “aliança pela água” para atuar ao lado da Prefeitura na tentativa de solucionar um dos problemas estruturais mais antigos e sensíveis do segundo maior município mato-grossense.
O anúncio representa a sinalização de que o Estado pretende assumir protagonismo em uma questão que, historicamente, sempre esteve sob responsabilidade municipal.
A iniciativa surge após a prefeita Flávia Moretti (PL) reconhecer publicamente que a administração municipal não possui condições financeiras e técnicas suficientes para reestruturar o Departamento de Água e Esgoto (DAE) e ampliar a capacidade de distribuição.
A manifestação evidencia uma mudança de postura diante de um problema que há décadas compromete a qualidade de vida de milhares de moradores e se tornou um dos maiores desafios da gestão pública em Várzea Grande.
Ao apresentar a proposta, Pivetta afirmou que o objetivo não é apenas acompanhar a situação, mas construir uma atuação integrada entre Estado e município.
“O nosso plano está sendo elaborado. Muito em breve faremos a aliança pela água”, declarou.
A escolha da expressão “aliança” não é casual. O termo transmite a ideia de compartilhamento de responsabilidades e indica que o Governo do Estado pretende participar diretamente da formulação e execução de medidas para enfrentar a crise, seja por meio de investimentos, apoio técnico ou articulação institucional.
Na prática, trata-se do reconhecimento de que a complexidade do problema ultrapassa a capacidade operacional do município e exige uma resposta coordenada.
Durante o pronunciamento, Pivetta adotou um tom firme ao afirmar que considera inadmissível que uma cidade do porte de Várzea Grande ainda conviva com interrupções frequentes no fornecimento de água.
Segundo ele, o acesso à água potável não deve ser tratado apenas como um serviço público, mas como um direito essencial ligado diretamente à dignidade humana.
“Não admito que, nos dias de hoje, alguém ainda não tenha esse bem básico para viver com dignidade”, afirmou.
A declaração busca deslocar o debate da esfera administrativa para uma dimensão social, reforçando que a falta de abastecimento produz impactos que vão além do desconforto cotidiano. A escassez compromete a saúde pública, dificulta atividades econômicas, prejudica o funcionamento de escolas e unidades de saúde e afeta principalmente famílias em situação de vulnerabilidade.
Além de anunciar a futura parceria, Pivetta responsabilizou gestões passadas pelo agravamento da crise.
Segundo ele, a ausência de investimentos contínuos e de planejamento permitiu que os problemas do sistema de abastecimento se acumulassem ao longo dos anos.
O governador em exercício afirmou considerar “omissas” administrações anteriores e defendeu que faltou prioridade política para enfrentar um problema considerado básico.
A crítica reforça um discurso frequentemente utilizado por integrantes do governo estadual, que atribuem parte das dificuldades enfrentadas por diversos municípios à falta de investimentos estruturantes ao longo de sucessivas administrações.
Um dos momentos mais marcantes da fala ocorreu quando Pivetta recordou sua própria experiência antes de ingressar na vida pública.
Natural do Rio Grande do Sul, ele relembrou os primeiros anos em Mato Grosso, na década de 1980, quando sua família também enfrentou dificuldades de acesso à água.
Segundo o governador em exercício, durante cerca de dez anos foi necessário buscar água em poços e transportá-la em baldes para atender às necessidades básicas da casa.
O relato foi utilizado para demonstrar que conhece, na prática, os impactos da escassez hídrica e para aproximar seu discurso da realidade vivida por milhares de moradores de Várzea Grande.
A crise no abastecimento de água em Várzea Grande não é recente.
Há décadas, o município convive com uma combinação de fatores como crescimento urbano acelerado, redes antigas, perdas elevadas na distribuição, limitações operacionais e insuficiência de investimentos em captação, tratamento e expansão do sistema.
Nos períodos de maior consumo, bairros inteiros frequentemente enfrentam desabastecimento, obrigando moradores a recorrerem a caminhões-pipa, armazenamento improvisado e outras soluções emergenciais.
O cenário afeta diretamente a qualidade de vida da população e tornou-se um dos principais temas de cobrança da sociedade aos gestores públicos.
O reconhecimento da Prefeitura de que necessita do apoio do Governo do Estado abre espaço para uma nova fase na tentativa de superar o problema.
Caso a chamada “aliança pela água” seja efetivamente estruturada, a expectativa é de que sejam viabilizados recursos financeiros, suporte técnico e planejamento integrado capazes de acelerar obras de modernização do sistema de abastecimento.
Especialistas em saneamento apontam que soluções definitivas normalmente envolvem investimentos elevados em captação, reservação, tratamento, substituição de redes antigas e ampliação da capacidade operacional, medidas que exigem planejamento de longo prazo e forte capacidade financeira.
O anúncio feito por Otaviano Pivetta representa um importante gesto político diante de uma das maiores demandas da população de Várzea Grande. Entretanto, o sucesso da iniciativa dependerá da apresentação de um plano concreto, definição de fontes de financiamento, cronograma de execução e metas capazes de produzir melhorias perceptíveis no abastecimento.
Para uma população acostumada a conviver com torneiras secas e promessas recorrentes, a expectativa agora é que a “aliança pela água” saia do discurso e se traduza em obras, investimentos e eficiência administrativa.
O desafio envolve garantir um direito básico previsto na Constituição e devolver segurança hídrica a milhares de famílias que há anos convivem com uma realidade incompatível com o desenvolvimento econômico de Mato Grosso.





























