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As vozes literárias Negras que ecoam no Nortão

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O Coletivo Negras Matogrossenses vem transformando a literatura em instrumento de resistência, identidade e memória em Sinop- MT e região.

No coração do Nortão mato-grossense, um grupo consolidado vem compondo e reescrevendo a história. Sediado em Sinop, o Coletivo Negras Matogrossenses radicou ao longo dos últimos anos uma trajetória literária que vai muito além das páginas dos livros, chegado às escolas públicas, bibliotecas, praças e às salas de aula, plantando sementes de consciência, ancestralidade e orgulho negro no cerrado e na floresta do norte de Mato Grosso.

Uma literatura que nasce da resistência

Desde sua fundação, o coletivo entendeu que escrever é um ato político. As publicações do grupo unem literatura, crítica e práticas pedagógicas antirracistas, respondendo a uma lacuna histórica no cenário cultural regional. Entre as obras coletivas estão: Nós e os Outros; Por uma educação linguístico-literária antirracista na educação básica, a coletânea Narrativas Insubmissas e a obra Corpo, território e palavra: ensaios sobre identidade e resistência, títulos que se tornaram referência para educadores comprometidos com uma pedagogia libertária e inclusiva.

As vozes individuais também ganham forma em livros autorais. São eles: Lila, Lolô e as coisas miúdas, Matreiras e Que dia o dia dorme? que levam a literatura negra ao público infantil, apresentando às crianças personagens e referências de representatividade e regionalidade. Há que se mencionar as produções de poesias, contos e romances, Nas margens da vida, Moenda e A epopeia do esquecimento, Enunciações, Aos que me habitaram, O sol que habita em mim e A chama que nasce da Ceifa, obras mais recentes e que adentram territórios mais densos – da memória, do corpo, da dor e da beleza negra – com a potência de quem escreve a partir da própria experiência.

Um marco importante nessa trajetória foi a aprovação de projetos literários por meio de editais públicos de fomento à cultura, entre eles recursos da Lei Nº 14.399, de 8 de julho de 2022 – Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, viabilizados pelo Edital n° 15/2024/SECEL/MT – Literatura em Cena – Edição PNAB – Ciclo 1, da SECEL – Secretaria de Estado de Cultura Esporte e Lazer, com o projeto LITERATURA EM MOVIMENTO: VOZES QUE ECOAM. A conquista representa o reconhecimento institucional de que a produção literária negra é patrimônio cultural da cidade e da região.

E é nesse contexto, do Norte de Mato Grosso, que livros podem ampliar vozes historicamente silenciadas, mulheres negras, indígenas e periféricas, descentralizando narrativas e fortalecendo a cena literária regional. Eis seis vozes do Nortão mato-grossense que, entre versos, contos e memórias, reafirmam a potência da literatura negra contemporânea.

Claudia Miranda Franco, em Aos que me habitam, investiga vestígios deixados por homens, amores e antepassadas, transformando dor em potência feminina. Solange Oliveira Santos, com O que vem pela frente?, celebra a infância como território de perguntas, onde mãe e filha exploram o mundo com delicadeza e imaginação. Helenice Faria, em Enunciações, entrelaça contos de memória, resistência e ancestralidade, dando voz a mulheres negras. Rasuras negras – volume 2 reúne catorze poetisas do Coletivo Negras Matogrossenses, em vozes que insistem e florescem. Jacinaila Ferreira, em O sol que habita em mim, mistura poesia e prosa para narrar sua trajetória de superação. Por fim, Antonio Cesar, em A chama que nasce da Ceifa, romanceia a luta de escravizados por liberdade no Brasil Colonial.

A literatura que vai à escola – e à rua

O alcance do coletivo não se limita ao mercado editorial. A literatura vira festa, encontro e celebração coletiva. Saraus, rodas de leitura e oficinas de escrita criativa que levam a literatura a um número incontável estudantes de escolas públicas da região, muitos deles tendo contato pela primeira vez com autoras e autores negros brasileiros. O trabalho do Coletivo Negras Matogrossenses já rendeu reconhecimentos que traduzem, em linguagem institucional, o que a comunidade já percebeu: que essas vozes importam, que essa literatura é necessária e que o Nortão tem muito a dizer ao Brasil.

 

Por Cláudia Miranda Franco

 

 

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