Delegado alerta a população para não propagar mensagens de massacre contra escolas, número de ataques em escolas no Brasil já supera o total registrado nos últimos 20 anos
A Polícia Civil de Mato Grosso está empenhada no esclarecimento e identificação de autores que estão propagando mensagens com ameaças a unidades escolares no Estado. As ações integram a Operação Escola Segura, desencadeada na última semana pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), em parceria com os estados.
Em Mato Grosso, as investigações são coordenadas pela Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI), em apoio às delegacias dos municípios onde houve registros de mensagens contra escolas publicadas em redes sociais.
O titular da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI), Ruy Guilherme Peral, alertou a população para não propagar as mensagens de massacre contra escolas que vêm repercutindo na internet.

“Venho trazer uma informação importantíssima para a população sobre essas ameaças de massacre que têm sido veiculadas pelas redes sociais: Atenção pais, professores e alunos, no primeiro momento é preciso ter calma. E também direcionar todas essas informações para os canais oficiais de denúncia. Aqui no caso a DRCI possui um telefone funcional, 65 99773 4429, com whatsapp vinculado, para o recebimento dessas denúncias. Importante: Não pulverize essas mensagens recebidas em grupos e outras redes sociais para evitar ter o efeito contágio e estimular outras condutas. A prática de tais condutas, a divulgação de fake news, pode configurar crimes gravíssimos, cujas penas ultrapassam 30 anos de cadeia”, afirmou Ruy, nesta segunda-feira (10).
As investigações já identificaram autorias de mensagens nas cidades de Arenápolis, Cuiabá, Campo Verde, Ipiranga do Norte e Nova Xavantina.
“A Polícia Civil tem atuado de imediato para reprimir as condutas criminosas e pessoas podem ser presas ou apreendidas a qualquer momento. Estamos executando ações investigativas, por meio da DRCI, para repressão às divulgações de ameaças em redes sociais envolvendo escolas de Mato Grosso e destacamos que a internet não é terra sem lei e quem age dessa forma será identificado e devidamente responsabilizado”, reforçou o delegado titular da DRCI, Ruy Guilherme Peral.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, informou ontem (10) que o governo federal vai exigir que plataformas criem canais abertos e ágeis para atender solicitações das autoridades policiais sobre conteúdos com apologia à violência e ameaças a escolas nas redes sociais, e o monitoramento ativo das plataformas em relação a ameaças.
O ministro reuniu-se nesta segunda-feira (10) com representantes das empresas Meta, Kwai, Tik tok, Twitter, YouTube, Google e WhatsApp para debater ações de prevenção à violência.
“Estamos vendo pânico sendo instalado no seio das escolas e das famílias e não identificamos ainda a proporcionalidade de reação das plataformas com essa epidemia de violência que ameaçam nossas escolas nesse momento”, disse em entrevista à imprensa. “Deixei claro na reunião que, se a notificação não for atendida, vamos tomar as providências policiais e judiciais contra as plataformas. Obviamente, não desejamos isso. Desejamos que as plataformas nos ajudem”, afirmou.
As plataformas serão notificadas formalmente sobre os perfis e conteúdos suspeitos identificados e poderá sofrer sanções se não agir.
– mas o que é esse Efeito Contágio?
O Efeito Contágio é a tendência de que a divulgação dos atos, informações pessoais e nomes de autores de massacres e episódios de violência extrema estimule outros indivíduos a tentarem imitar a ação criminosa para ganhar notoriedade na mídia.
O número de ataques em escolas no Brasil já supera o total registrado nos últimos 20 anos. A pesquisadora Michele Prado, do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), registrou 22 ataques a escolas entre outubro de 2002 e março de 2023. Ela argumenta que é fruto de um processo de radicalização online em massa, e atinge principalmente o público jovem, a partir dos 10 anos.
“Elas não estão da deep web ou na dark web, estão na superfície, em aplicativos como Discord, Twitter, TikTok, Telegram e WhatsApp. Alguns jovens se queixam de bullying, outros parecem ter transtorno de personalidade narcisista, com perfil de agressores e não de vítimas. Nas redes, eles são expostos a teorias conspiratórias que desumanizam grupos específicos”, diz Prado, em entrevista à BBC.
Outro levantamento de pesquisadores da Unicamp, liderado pela Dra. Telma Vinha, que considerou apenas casos envolvendo alunos e ex-alunos como agressores, registra 22 ataques entre 2002 e 2023, sendo 10 deles nos últimos dois anos.
Segundo Danila Di Pietro, uma das pesquisadora da Unicamp, em entrevista à BBC, isso está relacionado também ao avanço da cultura de violência no país e pede à imprensa para não divulgar em detalhes como tudo aconteceu, por acabar ensinando ‘como fazer’.
“Passamos por uma banalização da violência. […] Nosso pedido à imprensa é de não divulgar em detalhes como a coisa se deu, porque isso acaba ensinando como se fazer. É preciso focar muito mais nas vítimas do que no agressor, porque tudo que ele querem é notoriedade”, afirma Di Pietro.
Muitos veículos de imprensa, considerando o Efeito Contágio, seguiram o conselho dos pesquisadores, o Estadão publicou que “O Estadão decidiu não publicar foto, vídeo, nome ou outras informações sobre o autor do ataque, embora ele seja maior de idade. Essa decisão segue recomendações de estudiosos em Comunicação e violência”, registra o texto, que diz ainda: “A visibilidade dos agressores é considerada como um ‘troféu’ dentro dessas redes”, em seu post nas redes.
A CNN também se posicionou no ‘CNN Prime Time’ e no Twitter: “A posição atende a um pedido do Ministério Público de Santa Catarina e segue recomendação de especialistas, sob risco de a exposição estimular futuros atos de violência”, registra.
“Os veículos do Grupo Globo tinham há anos como política publicar uma única vez o nome e a foto de autores de massacres como o ocorrido em Blumenau, objetivo sempre foi evitar dar fama aos assassinos para não inspirar autores de novos massacres. Essa politica muda hoje e será ainda mais restritiva, o nome e a imagem de autores de ataques jamais serão publicados assim como vídeos das ações. […] Estudos mostram que os autores buscam exatamente esta notoriedade, por pequena que seja, e não noticiamos ataques frustrados subsequentes, também para conter o chamado ‘Efeito Contágio’”, afirmou William Bonner, no Jornal Nacional de quinta-feira (5).





























