Recém-empossada no comando da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá, a enfermeira e gestora Deisi Bocalon assume uma das áreas mais sensíveis da administração do prefeito Abilio Brunini com uma missão clara: ampliar o acesso da população aos serviços de saúde e reduzir filas que, em alguns casos, ultrapassam uma década de espera.
Em entrevista ao programa Espaço Aberto, a nova secretária apresentou um diagnóstico da rede municipal, detalhou os principais gargalos da saúde pública da capital e revelou as estratégias que a gestão pretende adotar para melhorar o atendimento à população.
A chegada de Deisi à pasta ocorre em um momento de expectativa dentro da administração municipal. Após a saída da então secretária Daniele Carmona, a escolha de seu nome levou em consideração a experiência acumulada na gestão pública e seu conhecimento da rede municipal.
Servidora concursada de Cuiabá desde 2013 e participante da intervenção estadual na saúde da capital em 2023, ela conhece de perto os problemas estruturais do sistema.
“Era um desafio muito grande para a minha carreira ser secretária de Saúde da capital do meu estado. Eu já conhecia toda a rede de serviços de Cuiabá e me senti muito honrada pela confiança depositada pelo prefeito Abilio Brunini”, afirmou.
Ao assumir o cargo, Deisi encontrou uma realidade menos crítica do que a observada durante a intervenção estadual, mas ainda marcada por dificuldades acumuladas ao longo dos anos.
Segundo ela, a falta de investimentos contínuos em manutenção predial, equipamentos e ampliação da rede deixou marcas que ainda impactam diretamente o atendimento à população.
A secretária evita discursos triunfalistas. Reconhece avanços recentes, mas afirma que a saúde de Cuiabá ainda convive com problemas estruturais e financeiros relevantes.
“Hoje eu recebi uma saúde mais organizada, já com alguns contratos em andamento e algumas obras finalizadas, mas com muito serviço ainda a ser feito. Foram anos de falta de investimento em coisas básicas, como manutenção das unidades de saúde, hospitais, policlínicas e UPAs”, destacou.
Entre os desafios herdados estão contratos que precisam ser reorganizados, dívidas com prestadores de serviços e uma demanda crescente por atendimentos especializados..
A principal preocupação da gestão hoje é enfrentar filas que se tornaram símbolo das dificuldades históricas do sistema público de saúde em Cuiabá. Há pacientes aguardando procedimentos desde 2016. Em alguns casos, a espera ultrapassa dez anos.
“Nós temos pacientes aguardando cirurgia de varizes desde 2016. Na cirurgia bariátrica encontramos pessoas que estavam há 12 anos esperando. Isso não é razoável para nenhum sistema de saúde”, afirmou, ao explicar que o problema não está apenas na demanda reprimida, mas principalmente na limitação da capacidade instalada da rede pública.
A solução encontrada pela nova gestão passa por uma medida considerada estratégica: abrir espaço para que hospitais privados e instituições filantrópicas realizem procedimentos pelo SUS.
Para isso, a Secretaria Municipal de Saúde estruturou um programa financiado pelo Governo de Mato Grosso, com aporte previsto de R$ 54 milhões destinados ao credenciamento de serviços especializados.
“O nosso principal objetivo é ampliar o acesso. Hoje é evidente que apenas os prestadores tradicionais do SUS não conseguem atender toda a demanda existente. Precisamos aumentar a oferta de serviços para fazer a fila andar”, explicou.
A expectativa é que hospitais privados passem a absorver parte da demanda por cirurgias ortopédicas, urológicas, vasculares e outros procedimentos especializados que hoje enfrentam longos períodos de espera.
Paralelamente à redução das filas, Deisi aposta no fortalecimento da atenção primária como forma de evitar que problemas simples se transformem em casos de maior complexidade.
Deisi destaca que uma das primeiras medidas adotadas foi enfrentar o déficit de médicos nas equipes de Saúde da Família. Atualmente, segundo ela, apenas duas equipes permanecem sem profissionais efetivos, situação que deve ser resolvida nos próximos dias.
A meta é melhorar a qualidade do atendimento e os indicadores acompanhados pelo Ministério da Saúde.
“Hoje os repasses para a atenção básica dependem diretamente dos resultados alcançados pelas equipes. Quanto melhor o atendimento prestado, maior é o retorno financeiro para o município”, explicou.
Atualmente, Cuiabá conta com 72 unidades básicas de saúde espalhadas pelos bairros da capital. Para a gestão, fortalecer essas unidades significa reduzir a pressão sobre policlínicas, UPAs e hospitais.
Outro desafio destacado pela secretária é o papel regional exercido pela capital.
Embora diversos municípios tenham ampliado sua capacidade de atendimento nos últimos anos, Cuiabá ainda concentra grande parte dos procedimentos de média e alta complexidade realizados em Mato Grosso.
Neurocirurgias, cirurgias ortopédicas complexas e procedimentos que exigem leitos de UTI continuam atraindo pacientes de todas as regiões do estado.
“A capital ainda recebe uma demanda muito grande de municípios que não possuem estrutura para determinados procedimentos. Isso impacta diretamente nossa capacidade de atendimento”, observou.
Na avaliação da secretária, será necessário revisar mecanismos de pactuação entre os municípios para adequar responsabilidades e recursos à realidade atual da saúde pública.
Entre as áreas que receberão atenção especial está a saúde mental.
O crescimento dos casos de ansiedade, depressão, dependência química e transtornos psicológicos fez com que a Prefeitura passasse a priorizar investimentos na rede psicossocial.
Nos últimos meses foi entregue o CAPS Adolescer, especializado no atendimento de adolescentes, enquanto um novo CAPS está prestes a ser inaugurado no CPA IV. Além disso, o CAPS III do Verdão passa por reforma e deverá funcionar em regime de 24 horas.
“A saúde mental tem sido uma prioridade. Não estamos falando apenas de prédios novos, mas da construção de uma rede de cuidado capaz de atender uma demanda que cresce a cada dia”, afirmou.
A gestão também pretende enfrentar um problema que se tornou cada vez mais frequente nas unidades de saúde: a violência contra profissionais.
Por meio do programa Vigia Mais Saúde, servidores das UPAs passaram a contar com um sistema de acionamento emergencial integrado às forças de segurança.
Segundo Deisi, a ferramenta foi criada após episódios de agressões registrados dentro das unidades.
“Infelizmente já tivemos casos de violência contra profissionais da saúde. Precisamos garantir segurança para quem trabalha e também para quem busca atendimento”, disse.
Durante a entrevista, a secretária fez um apelo direto aos usuários do SUS: manter os dados cadastrais atualizados.
Para ela, a dificuldade para localizar pacientes tem se tornado um obstáculo inesperado na tentativa de acelerar o atendimento.
Na fila da cirurgia bariátrica, por exemplo, apenas uma pequena parcela dos pacientes inicialmente convocados conseguiu ser localizada.
“Muitas pessoas mudam de telefone e não atualizam o cadastro. Quando a vaga aparece, nós simplesmente não conseguimos encontrá-las”, alertou.
Também chamou atenção para a necessidade de ampliar a cobertura vacinal, especialmente entre crianças e grupos prioritários, diante do retorno de doenças que estavam sob controle no país.
“Vacina salva vidas. Precisamos recuperar a confiança da população na imunização e evitar que doenças preveníveis voltem a se espalhar”, afirmou.
Ao assumir a Secretaria Municipal de Saúde, Deisi Bocalon herda uma estrutura que atende não apenas os moradores de Cuiabá, mas também milhares de pacientes vindos do interior de Mato Grosso em busca de procedimentos especializados. Sua gestão começa sob a pressão natural de uma área onde os resultados são cobrados diariamente pela população.
A aposta da nova secretária está na combinação entre ampliação da rede credenciada, fortalecimento da atenção básica, investimentos em infraestrutura e reorganização dos serviços especializados. O desafio agora será transformar essas medidas em resultados concretos para uma população que há anos convive com filas, dificuldades de acesso e uma demanda crescente por atendimento de qualidade.



























