Primeira mulher a presidir a Câmara Municipal, vereadora está no terceiro mandato e afirma que sua trajetória política nasceu do desejo de servir e da experiência de quem conheceu de perto as dificuldades enfrentadas por famílias e jovens
A política não estava nos planos de Daise Martins quando ela chegou a Mato Grosso. Aos 23 anos, vinda de São Paulo e com uma trajetória marcada pela participação em grupos juvenis, na igreja, na música e em ações comunitárias, ela ainda não imaginava que, pouco tempo depois, estaria ocupando uma cadeira no Legislativo de Tapurah.
Aos 24 anos, em 2017, tornou-se vereadora pela primeira vez. Hoje, no terceiro mandato, ocupa outro espaço histórico: é a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Tapurah.
Em entrevista ao programa Espaço Aberto, apresentado por Zico Zortéa, Daise falou sobre a trajetória que a levou à política, os projetos que marcaram seus mandatos e uma atuação que, segundo ela, nasceu muito mais da vontade de ajudar do que de uma tradição familiar ligada à política.
“Eu não sou filha de política, eu não vim de cunho político. Eu não vim de pessoas que estivessem ligadas diretamente, mas vim de um desejo real de servir”, afirmou.
Essa frase ajuda a entender o caminho percorrido pela vereadora. Antes de chegar ao plenário, Daise já exercia liderança em diferentes espaços da comunidade.
A igreja, os grupos de jovens, a fanfarra, o hip-hop e as atividades filantrópicas foram, segundo ela, ambientes onde começou a desenvolver a capacidade de mobilizar pessoas e enxergar problemas sociais.
Foi também nessas experiências que nasceu uma das principais bandeiras de sua atuação parlamentar: a cultura como instrumento de transformação.
Daise conta que, quando iniciou o primeiro mandato, percebeu uma demanda que chegava diretamente das famílias: a necessidade de criar alternativas para crianças e adolescentes durante o contraturno escolar, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade.
A resposta, segundo ela, foi começar a construir uma política cultural no município.
“Um dos projetos que mais marcaram a minha vida foi o Festival Cultural”, relembrou.
A ideia, explica, nunca foi simplesmente promover festas ou eventos. O objetivo era criar oportunidades para que crianças e jovens descobrissem talentos e encontrassem perspectivas diferentes para suas próprias vidas.
“Eu descobri a música dentro da igreja. Eu descobri talentos, dons que eu tinha e que eu não sabia através de oportunidades como essa”, contou.
É a partir dessa experiência pessoal que Daise constrói sua defesa de políticas públicas para a juventude. Para ela, oferecer acesso à cultura, à música, ao esporte e à convivência comunitária também significa atuar na prevenção de situações de vulnerabilidade.
“Como oportunizar adolescentes e crianças que hoje, num cenário que a gente vive, não têm visão de futuro, muitas vezes não têm capacidade de sonhar, que estão à margem da criminalidade?”, questionou.
A vereadora reconhece que o tema da segurança pública costuma aparecer associado à repressão e ao debate sobre redução da maioridade penal, mas defende que a discussão precisa começar antes.
“Nós falamos de diminuir a criminalidade, falamos de diminuir a maioridade penal também, falamos de tudo isso. Mas o que o Estado tem oferecido de oportunidade a essas pessoas?”, provocou.
Para Daise, a cultura pode funcionar justamente nesse espaço entre a vulnerabilidade e a construção de novas possibilidades.
“Quando você desperta no adolescente, no jovem, o potencial dele, você começa a acreditar em uma nova realidade de sociedade”, afirmou.
A defesa da cultura não é apenas uma bandeira política. Ela está diretamente relacionada à história da própria vereadora.
Daise conta que viveu a infância e a adolescência em São Paulo, em um contexto que, segundo ela, poderia tê-la levado por caminhos diferentes. Sua mãe, que havia saído do Nordeste para criar as filhas, buscou uma mudança de vida para a família.
Foi a participação em atividades comunitárias que, segundo Daise, abriu outras possibilidades.
“Eu vim de um cenário que poderia me levar para outros caminhos, mas eu tive uma base que acreditou em mim”, relatou.
Ela lembra que participou de fanfarra, hip-hop, catequese e ações de entidades filantrópicas. Essas experiências não apenas despertaram talentos, mas também fizeram com que ela passasse a ocupar espaços de liderança.
“Eu era envolvida em todos esses movimentos. Automaticamente, me tornei liderança.”
É essa lembrança que ela leva para o debate sobre políticas públicas.
“Eu fui esse fruto desse trabalho”, resume.
Durante a entrevista, Daise também falou sobre as críticas que recebeu quando passou a defender investimentos e ações culturais.
Segundo ela, havia quem interpretasse sua atuação como uma preocupação excessiva com festas e eventos.
“Eu fui muito criticada, porque ‘essa vereadora só quer saber de festa’, ‘essa vereadora só quer saber de barulho’.”
A resposta veio, segundo ela, com a própria transformação produzida pelas atividades.
“Só que ninguém imaginava o que estava atrás do barulho. Atrás do barulho tinha pessoas que lutavam por movimentos e por bandeiras para oportunizar seres humanos a olhar a vida diferente.”
A vereadora defende que a cultura seja compreendida também como política social e como parte da chamada economia criativa.
“É baixo custo de recurso que faz uma transformação de sociedade”, afirmou.
Para ela, o poder público ainda tende a priorizar temas que geram maior visibilidade política, principalmente durante períodos eleitorais.
“Nas épocas de eleições, nós trabalhamos pautas politiqueiras. Vamos falar de saúde, vamos falar de agro”, disse, antes de completar com uma provocação: “O que dá voto.”
Na avaliação de Daise, entretanto, é necessário olhar para problemas que nem sempre aparecem entre as grandes bandeiras eleitorais.
“Quando você vai lá para a ponta, para o município, para o interior, que você vê um povo à mercê de uma sociedade desumana, é lá que tem que trabalhar.”
E conclui: “O cenário que a gente vive hoje pede humanidade.”
A defesa do serviço público também ganhou espaço central na entrevista.
Daise afirma que é usuária do Sistema Único de Saúde e que sua relação com a saúde pública não é apenas política. É também familiar.
“Eu sou usuária do sistema SUS”, declarou. “Se eu fico doente, eu vou no hospital municipal da minha cidade. É ali que eu sou acolhida, é ali que eu sou tratada.”
A experiência mais dolorosa, segundo ela, ocorreu com a própria mãe, que sofreu um infarto durante um deslocamento para atendimento.
O episódio marcou profundamente sua visão sobre a estrutura de saúde disponível para quem mora no interior.
“Eu vi a minha mãe sendo atendida por uma enfermeira desesperada, tentando, na mão, tentando reanimar ela”, relatou.
A partir dessa lembrança, Daise passou a questionar o tempo necessário para que moradores de municípios menores tenham acesso a serviços especializados.
“Hoje nós dependemos de um sistema para poder ter uma qualidade de saúde”, afirmou.
Na entrevista, ela relatou situações que diz ter acompanhado pessoalmente, envolvendo pacientes que aguardavam transferências hospitalares, inclusive crianças e vítimas de acidentes.
“Eu conheço, eu visito hospital, eu fiscalizo, eu sei o que acontece”, disse.
A fala revela outra dimensão que Daise atribui ao mandato: a fiscalização.
Para ela, o vereador não deve limitar sua atuação à apresentação de projetos. Precisa acompanhar o funcionamento dos serviços e cobrar respostas quando a população enfrenta dificuldades.
“Estou falando que nós poderíamos salvar outras vidas”, afirmou ao relatar um caso de um jovem que precisava de atendimento de maior complexidade após um acidente.
Se cultura e saúde aparecem como bandeiras presentes desde os primeiros anos de mandato, a defesa das mulheres ganhou uma dimensão ainda maior ao longo da trajetória parlamentar.
Daise lembra que passou os dois primeiros mandatos como única mulher no Legislativo e que, atualmente, Tapurah conta com três vereadoras.
A mudança na representação feminina, segundo ela, também trouxe uma nova percepção sobre a necessidade de ampliar políticas específicas para as mulheres.
“Eu entendi o quanto as mulheres precisam de representantes femininas nos parlamentos, precisam de mulheres que falem por elas.”
A partir dessa compreensão, a pauta de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher passou a ocupar espaço importante em sua atuação.
Entre as iniciativas citadas está o projeto “Maria da Penha vai à escola”, com a proposta de levar informação e prevenção para estudantes.
A intenção, segundo Daise, é fazer com que a discussão não fique restrita ao Agosto Lilás.
“A nossa meta é, a cada dois meses, 60 dias, estar dentro das escolas falando sobre isso.”
A lógica é trabalhar a prevenção antes que a violência aconteça e formar crianças e adolescentes para reconhecer situações de violência e compreender os mecanismos de proteção existentes.
A primeira mulher a presidir a Câmara
A trajetória iniciada em 2017 ganhou um novo significado quando Daise chegou à presidência da Câmara Municipal.
A conquista tem um peso simbólico ainda maior por ser a primeira mulher a ocupar o cargo na história do Legislativo de Tapurah.
Mas, na entrevista, ela deixa claro que a conquista veio acompanhada de uma cobrança pessoal.
“Eu tive dois sentimentos: o de orgulho e o de medo”, confessou.
O medo, explica, não estava relacionado ao cargo em si, mas à responsabilidade de decidir o que deixaria como marca de sua passagem pela presidência.
“O que eu deixarei enquanto servidora, enquanto ser humano, enquanto política? O que eu vou deixar para o meu município?”
A resposta veio na forma de uma palavra que aparece várias vezes em sua fala: legado.
“Eu não quero só ser a presidente. Quero deixar uma marca, deixar um legado.”
Entre os símbolos desse legado está justamente a pauta feminina, incluindo iniciativas de acolhimento e proteção às mulheres.
Mesmo tendo enfrentado momentos de oposição política ao longo da carreira, Daise afirma que procura manter uma relação de diálogo com os demais vereadores.
“Eu sei, graças a Deus, separar as coisas. Nós tratamos de política”, afirmou.
Para ela, divergências fazem parte do ambiente parlamentar, mas não precisam impedir a construção de soluções.
“Nós temos as nossas desavenças políticas, isso é natural, isso é normal dentro do parlamento.”
A relação com o Executivo também é descrita pela vereadora como positiva. Segundo Daise, o diálogo político se ampliou durante o atual período e ela passou a ter maior participação nas discussões do grupo político.
Ao longo da entrevista, uma ideia atravessa praticamente todas as respostas de Daise Martins: a política, para ela, precisa começar pelas pessoas.
A cultura aparece como oportunidade. A saúde, como direito. A defesa das mulheres, como proteção. A fiscalização, como obrigação. E a presidência da Câmara, como responsabilidade.
É uma visão de política construída a partir da própria história.
A menina que encontrou na música, na igreja e nos movimentos comunitários uma possibilidade de descobrir seus talentos tornou-se vereadora e, depois, a primeira mulher a comandar o Legislativo de Tapurah.
“Eu vim de um cenário que poderia me levar para outros caminhos, mas eu tive uma base que acreditou em mim”, disse.
Talvez seja justamente nessa experiência que esteja a síntese de sua atuação parlamentar: oferecer a outras pessoas as oportunidades que um dia também fizeram diferença em sua própria vida.
Ao falar sobre cultura, juventude, saúde e mulheres, Daise retorna sempre à mesma preocupação: o que o poder público pode fazer antes que seja tarde demais.
E, para ela, a resposta passa por uma palavra que resume sua trajetória e sua atual concepção de mandato: servir.





























