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    Dentro de casa, diante dos filhos e quase sempre por alguém conhecido: os números do feminicídio em Mato Grosso revelam aumento de casos

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    Os dados divulgados pelo Ministério Público de Mato Grosso sobre os feminicídios registrados entre janeiro e maio de 2026 vão além das estatísticas criminais. Eles revelam um padrão cruel, repetitivo e cada vez mais evidente: as mulheres continuam morrendo dentro de casa, assassinadas por homens próximos, em crimes marcados por posse, controle e incapacidade de aceitar o fim de relacionamentos.

     

    Em apenas 134 dias, 18 mulheres foram mortas no estado. No mesmo período do ano passado, haviam sido 15 vítimas. O aumento de 20% expõe uma escalada silenciosa da violência de gênero em Mato Grosso, mesmo após anos de campanhas públicas, endurecimento das leis e ampliação do debate sobre feminicídio.

     

    Os casos recentes ajudam a explicar o tamanho da tragédia.

     

    Em Lucas do Rio Verde, uma mulher de 49 anos foi assassinada a facadas pelo marido após uma discussão dentro de casa. Segundo a Polícia Militar, a própria vítima conseguiu acionar os policiais antes de morrer. Quando a equipe chegou, ela já estava caída no chão da residência.

     

    Em Cuiabá, a morte da professora Lucieni Naves Corrêa, de 51 anos, provocou forte repercussão em todo o estado. Ela possuía medida protetiva contra o ex-marido, mas acabou assassinada a tiros dentro de casa. Familiares afirmaram que ela teria tentado pedir ajuda através do botão do pânico antes do crime.

     

    Já em Nova Maringá, Laila Caroline Souza da Conceição, de 29 anos, foi encontrada morta dentro da própria residência com múltiplas perfurações de faca. Um dos filhos da vítima foi encontrado em desespero no local do crime.

     

    Os episódios recentes praticamente reproduzem o retrato desenhado pelo Observatório Caliandra: 82% dos feminicídios aconteceram dentro da residência da vítima; 65% foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros; e 24% tiveram relação direta com separação ou tentativa de rompimento da relação.

     

    O levantamento também mostra que o feminicídio em Mato Grosso tem cor, idade e contexto social bem definidos. As vítimas são majoritariamente mulheres negras. Ao todo, 71% eram pardas ou pretas. A maior parte tinha entre 18 e 39 anos — mulheres jovens, em fase produtiva da vida, muitas delas trabalhando e sustentando famílias.

     

    O dado talvez mais brutal seja o impacto sobre as crianças.

     

    Mais da metade das vítimas eram mães. Em pouco mais de quatro meses, os feminicídios deixaram 22 órfãos no estado. Em 12% dos casos, as mulheres foram assassinadas na frente dos próprios filhos. Parte dessas crianças, segundo o levantamento, são filhos biológicos do próprio assassino.

     

    Os números também desmontam outro discurso recorrente: o de que os crimes seriam cometidos por homens “sem histórico”. Entre os 19 autores identificados, 79% já possuíam passagem criminal. Ainda assim, a maioria das vítimas estava sem proteção efetiva do Estado. Em 98% dos casos, não havia medida protetiva vigente no momento do assassinato.

     

    Mesmo assim, quase um terço das mulheres já havia denunciado os agressores anteriormente.

     

    Outro ponto que chama atenção é a motivação dos crimes. O relatório aponta que todos os feminicídios tiveram relação direta com violência de gênero. Em 25% dos casos, a motivação registrada foi menosprezo à condição feminina. Outros 25% envolveram ciúmes, sentimento de posse e controle sobre a vítima.

     

    Os dados mostram que o feminicídio raramente surge do nada. Antes do assassinato, normalmente existem ameaças, perseguições, agressões, denúncias ignoradas e sinais claros de violência crescente.

     

    Mato Grosso encerrou 2025 com um dos maiores números de feminicídios dos últimos anos, e os dados de 2026 indicam que o estado segue no mesmo caminho alarmante.

    Os números revelam uma crise social persistente, marcada pela violência doméstica, pela falha na proteção das vítimas e pela repetição de tragédias que, em muitos casos, já davam sinais de que poderiam acontecer.

     

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