Mato Grosso chega ao mês de abril de 2026 mantendo indicadores econômicos positivos, impulsionados principalmente pelo agronegócio, mas com um dado que evidencia um desequilíbrio persistente: quase metade da população adulta do Estado segue inadimplente.
Levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), com base em dados regionais consolidados pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá), divulgado no primeiro trimestre de 2026, aponta que entre 47% e 48% dos consumidores mato-grossenses possuem algum tipo de restrição de crédito.
“Dizem que aqui é lugar de milionário, mas são só alguns mesmo, proprietários e o pessoal do agro, a gente que é povo vive vendendo o almoço para pagar a janta”, comenta Jacir Monteiro, cozinheira.
O percentual representa aproximadamente 1,4 milhão a 1,5 milhão de pessoas com dívidas em atraso, em um cenário que se mantém elevado mesmo após os primeiros meses do ano. Os dados indicam que o endividamento não está concentrado em um período específico, mas se consolida como uma condição prolongada entre os consumidores.
De acordo com o levantamento mais recente do SPC Brasil, referente ao início de 2026, o valor médio das dívidas no Estado gira em torno de R$ 5,7 mil por consumidor, com tempo médio de atraso que pode chegar a 28 meses. O dado reforça o caráter estrutural da inadimplência, indicando dificuldades contínuas de renegociação e regularização financeira.
“A realidade é que o custo de vida aqui é muito absurdo, dificilmente você encontra um aluguel que não seja o valor de um salário mínimo”, comentou Fernando Silveira, professor.
Outro indicador relevante está no comportamento do volume de dívidas. Dados comparativos entre 2025 e o início de 2026 apontam que o crescimento do total de débitos em atraso ocorreu em ritmo superior ao da quantidade de inadimplentes.
Na prática, isso significa que, além de um número elevado de pessoas endividadas, há também aumento no valor acumulado por consumidor.
O perfil dos inadimplentes mostra concentração na faixa economicamente ativa, especialmente entre 30 e 39 anos, com média de idade próxima dos 44 anos.
Trata-se de um grupo diretamente inserido no mercado de trabalho, o que amplia os efeitos do endividamento sobre o consumo, o acesso ao crédito e a dinâmica econômica das cidades. As dívidas estão concentradas principalmente no sistema bancário, mas também incluem despesas essenciais, como contas de energia elétrica, água e serviços de comunicação.
O cenário contrasta com o desempenho econômico do Estado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao desempenho mais recente da economia, indicam que Mato Grosso mantém crescimento acima da média nacional, especialmente nos setores ligados à produção agropecuária e às exportações. Ainda assim, esse avanço não se reflete de forma proporcional na organização financeira das famílias.
Indicadores da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso (Fecomércio-MT), também divulgados ao longo do primeiro trimestre de 2026, mostram que o nível de endividamento das famílias permanece elevado, mesmo em momentos de leve recuo da inadimplência, sugerindo que o crédito tem sido utilizado como mecanismo para sustentar o consumo diante da pressão sobre a renda.
Mato Grosso mantém trajetória de crescimento econômico, mas convive com um nível elevado e persistente de endividamento da população.
Em abril de 2026, o Estado segue produzindo e expandindo, mas com uma parcela significativa dos consumidores ainda distante de uma condição de equilíbrio financeiro dentro de casa.




























