A política mato-grossense começa a desenhar suas chapas para 2026 e, no caso de Margareth Buzetti, a escolha da primeira suplente diz bastante sobre o perfil que a candidatura pretende apresentar ao eleitor.
Jucélia Ferro, ex-primeira-dama e ex-secretária de Assistência Social de Sorriso, foi confirmada para a vaga nesta quarta-feira (12), em uma composição que reúne três mulheres com trajetórias diferentes, mas uma característica em comum: experiência direta na gestão pública.
A confirmação ocorreu em Cuiabá, durante reunião entre Jucélia, o marido, Ari Lafin, e Margareth Buzetti. A chapa será completada pela coronel Grazielle Bugalho, ex-secretária de Estado de Assistência Social e Cidadania, na segunda suplência.
A escolha de Jucélia chama atenção porque ela chega à eleição por um caminho diferente do tradicional. Não passou por mandato de vereadora, deputada ou prefeita. Sua atuação política foi construída dentro da administração pública, especialmente na área social, onde permaneceu por oito anos à frente da secretaria de Assistência Social de Sorriso durante as duas gestões de Ari Lafin.
E foi justamente nesse período que seu nome deixou de ser conhecido apenas em Sorriso.
Jucélia presidiu o Colegiado Estadual de Gestores Municipais de Assistência Social de Mato Grosso (Coegemas-MT) por dois mandatos. Em 2021, foi eleita pela primeira vez e, em 2023, reconduzida por unanimidade para o biênio 2023/2024.
A entidade representa os gestores municipais nas discussões da política de assistência social e mantém interlocução com Estado, União e os próprios municípios.
Não é um detalhe menor.
A experiência no Coegemas colocou Jucélia em contato com prefeitos, secretários, gestores e demandas de diferentes regiões de Mato Grosso. É uma rede construída muito antes da campanha eleitoral e que agora pode ganhar outro significado.
Em Sorriso, sua atuação também teve uma característica que ela própria fazia questão de destacar: não tratar a assistência social apenas como distribuição de benefícios.
Em 2023, durante uma agenda em Maceió, Jucélia afirmou que a secretaria trabalhava para tirar as pessoas da vulnerabilidade por meio de qualificação e inserção no mercado de trabalho. Na ocasião, citou a oferta de mais de 2 milhões de cursos profissionalizantes gratuitos em Sorriso.
Essa visão ajudou a construir a imagem de uma gestora com forte atuação na área social, mas também com uma preocupação recorrente com autonomia financeira e geração de oportunidades.
Foi nessa condição que ela deixou a secretaria em março de 2025. Na ocasião, afirmou que pretendia se dedicar a projetos pessoais na área de assessoria e fez questão de dizer que se considerava mais técnica do que política.
Um ano depois, a situação mudou.
A política, desta vez, bateu à porta.
O convite partiu da própria Margareth Buzetti, na sexta-feira (7), e a confirmação veio poucos dias depois. Jucélia diz ter recebido a proposta com surpresa e satisfação.
“Acho que isso é um reflexo do trabalho que nós fizemos. Então, eu estou muito feliz. Agora é só seguir os trâmites para dar tudo certo”, afirmou.
A declaração é simples, mas ajuda a entender como a própria Jucélia enxerga esse movimento. Ela não apresenta a suplência como um ponto de chegada de uma carreira eleitoral construída durante anos. Trata como consequência de uma trajetória de trabalho.
E, pelo menos neste primeiro momento, mantém o discurso que marcou sua passagem pela vida pública.
“A senadora me convidou e eu aceitei o convite. E estou aqui para somar. Como eu sempre falo, estou aqui para somar, para contribuir com o nosso município, com o nosso estado”, disse.
Na prática, a escolha coloca Sorriso dentro de uma disputa que será nacionalizada e dá ao município um nome diretamente ligado à chapa que concorrerá ao Senado.
Ari Lafin foi além e classificou a indicação da esposa como um marco para Sorriso. Segundo ele, é a primeira vez que uma mulher do município é convidada a disputar uma posição dessa dimensão em uma chapa para o Senado.
A fala tem peso político, especialmente porque Ari também está em movimento para 2026 e trabalha sua candidatura a deputado estadual.
A presença dos dois na mesma eleição amplia o espaço de Sorriso no desenho eleitoral de Mato Grosso e transforma o casal em uma das peças importantes da articulação política do município.
Mas Jucélia não entra nessa disputa apenas como “a esposa de Ari Lafin”.
Ao longo dos últimos anos, ela construiu uma agenda própria, principalmente na assistência social. Foi secretária municipal, presidiu uma entidade estadual de gestores e participou de discussões que extrapolavam os limites de Sorriso.
Em documentos e agendas oficiais, aparece inclusive na interlocução sobre habitação, segurança alimentar, qualificação profissional e políticas para famílias em situação de vulnerabilidade.
Em 2024, sua atuação também esteve associada a projetos de inovação desenvolvidos em Sorriso e reconhecidos no InovaCidade, em iniciativas que envolviam a gestão municipal.
É esse currículo que agora será colocado à prova em uma eleição estadual.
E a composição escolhida por Buzetti não parece casual.
Margareth chega à disputa com uma trajetória marcada pela atuação no Senado e por pautas ligadas à proteção das mulheres.
É autora da lei que endureceu a punição para o feminicídio, elevando a pena para 20 a 40 anos de prisão.
Jucélia, por sua vez, traz a experiência da política social municipal e a vivência com famílias, crianças e adolescentes.
Grazielle Bugalho acrescenta à chapa a experiência da gestão estadual da assistência social.
São três mulheres, três trajetórias e três espaços diferentes de atuação pública.
A chapa, portanto, acaba construindo uma identidade própria antes mesmo do início oficial da campanha com uma chapa que promete priorizar a maior ferida social que existe em Mato Grosso, o alto índice de violência contra a mulher.
Para Jucélia, o desafio agora é outro. Depois de anos trabalhando nos bastidores da gestão, terá de ocupar o espaço de candidata, percorrer municípios e transformar uma experiência predominantemente administrativa em uma mensagem que converse com um eleitorado de todo o Estado.
É uma mudança de papel.
Até pouco tempo, ela podia dizer que era mais técnica do que política. Agora, estará no centro de uma das disputas mais importantes de Mato Grosso.
E talvez esteja justamente aí a principal novidade dessa escolha.
Jucélia Ferro não chega ao Senado por uma trajetória tradicional de mandato em mandato.
Chega depois de oito anos administrando uma das áreas mais delicadas de uma prefeitura, de ter ocupado espaço na articulação estadual da assistência social e de ter construído uma imagem pública ligada à gestão.



























