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    Produtores culturais do interior de Mato Grosso impulsionam a descentralização da Produção Cinematográfica Brasileira

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    Produtores culturais do interior de Mato Grosso estão desempenhando um papel fundamental na descentralização da produção cinematográfica brasileira, e muita coisa mudou desde que as leis de fomento da cultura começaram a disponibilizar recursos aos estados, e estes criaram editais para a distribuição, descentralizando a produção cinematográfica do eixo Rio-São Paulo e também das capitais.

    Em entrevista ao portal Momento MT, o Secretário Estadual de Cultura, Esporte e Lazer, Jefferson Neves, afirmou:

    Diretores Hansa Wood e Arakem Dourado nas filmagens. Créditos: Felipe Santos

    “A gente tem inúmeros cursos acontecendo do MT Criativo, da parceria com as prefeituras e as entidades sociais. Esses são vigentes e acontecendo a todo vapor. E a gente está trabalhando agora para tocar os editais da lei Paulo Gustavo. Mato Grosso vai receber uma grana legal com relação a isso, em torno de R$ 60 milhões. Disso, metade disso vai ser transferido pros municípios e a outra metade a secretaria vai lançar de editais próprios.”

    Sobre os editais próprios da Secel, ao ser perguntado sobre a diferenciação, por exemplo, de pessoa jurídica e pessoa física e também se os projetos fossem escritos por mulher, por pessoas negras, por indígenas, ele afirmou: “Vai ter, mas eu sentia muito critério social em relação a isso, né? Tanto é que a gente passou de 22 municípios atendidos com os nossos editais pra 89 municípios atendidos, de 2021 pra 2022. E no percentual de atendimento entre mulheres e homens, a gente tinha em torno de 35% em mulheres, 65% homens, e hoje tem 53% mulheres e 47% homens, porque quando você coloca os critérios sociais no edital, você acaba encorajando quem nunca participou ou quem sempre achou que não seria contemplado a participar, e é isso que a gente assistiu, né? Além disso, a gente teve um número muito maior de candidatos. Com esses critérios, a gente teve ele sendo contemplado de forma muito mais intensa também.”

    Desde a regulamentação da Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), pelo Governo Federal, a Secel tem buscado capacitar a sociedade civil para participar das políticas públicas que serão implantadas com o recurso. Estão previstos R$ 34,9 milhões para gestão do Estado e R$ 31,5 milhões para a gestão própria dos municípios.

    “Estamos no momento de planejamento, fase em que estados e municípios se organizam, ouvem a sociedade e se preparam para obtenção deste recurso. É muito importante que os gestores municipais de Mato Grosso estejam atentos e elaborem seus planos de ação para não perdermos os recursos”, destaca o secretário adjunto de Cultura, Jan Moura.

    A cidade de Lucas do Rio Verde, localizada no interior do estado, já está se tornando um novo polo cinematográfico, impulsionando a indústria audiovisual em uma região muitas vezes negligenciada nesse aspecto.

    Um exemplo recente dessa iniciativa é o filme “Dezesseis”, atualmente em produção pela produtora Focus Filmes, sediada em Lucas do Rio Verde. Com uma história envolvente que aborda temas relevantes como bullying e saúde mental, o filme tem como objetivo não apenas entreter o público, mas também promover discussões importantes sobre questões sociais.

    Sônia Silva, atriz, roteirista e produtora cultural, diretora da produtora Focus, conta sobre a dificuldade de produzir cinema fora do eixo Rio-São Paulo:

    Jovens de Lucas do Rio Verde atuaram na figuração do filme ‘Dezesseis’. Foto: Sonia Silva

    “Não é para qualquer um. Desde a dificuldade da contratação da equipe até a logística de equipamentos. São meses de trabalho para conseguir viabilizar toda a logística. Parece ser simples, mas é extremamente caro e complexo. O cinema tem uma linguagem própria, é acelerado e carregado de cuidados e detalhes. Enfim, é preciso muita coragem para ser pioneiro em um projeto desses. Estávamos há 2 anos nos preparando para trazermos a Lucas um set nacional, com uma técnica impecável. O início foi um sonho, principalmente do Luiz [Valotta], que trouxe essa proposta, e eu apenas embarquei. Daí pra cá, foi fazer projetos e ir atrás de recursos”, afirmou.

    Ao ser perguntada sobre como fazer cinema no interior, ela deu a dica: “Estudo e dedicação, pois é realmente uma experiência desafiadora”. A produtora destacou-se inovando durante a pandemia com o filme “Oi, Alice!”, uma produção local com atores nacionais que retratava a violência doméstica.

    Um dos aspectos mais significativos desse movimento é a valorização do elenco local. O filme “Dezesseis” conta com a participação de cerca de cinquenta a sessenta jovens das escolas de Lucas do Rio Verde, que têm a oportunidade de fazer parte dessa produção e mostrar seu talento para um público mais amplo. Além disso, atores locais como Luiz Valotta (também diretor), Pretu Nascimento, Helen Louzada e outros também integram o elenco principal, trazendo autenticidade e representatividade para o projeto.

    A chegada de produções cinematográficas a cidades do interior, como Lucas do Rio Verde, não apenas estimula a economia local, mas também promove o desenvolvimento cultural e artístico da região. A presença de uma produção cinematográfica cria oportunidades de emprego e impulsiona setores relacionados, como hospedagem, alimentação e serviços de suporte à produção audiovisual.

    O documentarista Jorge Sepulveda pôde contar com as leis de fomento da cultura para concorrer em edital da Secel por recursos para projeto do documentário.

    O documentarista Jorge Sepulveda foi contemplado pela Secel no Edital Audiovisual em 2022 com a proposta de produzir um documentário no coração da floresta do Xingu, com os indígenas da etnia Ikpeng, o documentário “Mel da Floresta-Xingu”. Ele comenta que para propostas ousadas como essa, a logística é o maior desafio:

    “Bom, um dos maiores desafios é montar uma equipe e produzir um audiovisual em um lugar distante, como é o caso de Mato Grosso. Temos bons profissionais que estão dispostos a enfrentar esse desafio, senão não teríamos conseguido fazer isso. Porém, a logística ainda é incipiente, está iniciando. Temos apenas uma via que corta todo o Mato Grosso, que é a BR-163, pela qual é feito todo o comércio de grãos, transporte de pessoas, cargas e animais. Portanto, devido a esse problema logístico, é um dos maiores desafios que enfrentamos”.

    Para chegar até lá, a equipe iniciou sua expedição em Cuiabá, passou por Lucas do Rio Verde e Sinop, chegou à Feliz Natal, e depois foram mais oito horas de barco através dos rios Von den Steinen, Ronuru e Xingu, até chegar à aldeia.

    Para produzir o documentário “Mel da Floresta-Xingu” a equipe precisou se deslocar até a aldeia indígena Arayó, no coração da floresta.

    “Considerando que o local é remoto, fomos para uma região com pouquíssimos habitantes, aldeias localizadas no meio da floresta, às margens do rio Xingu. Só é possível chegar lá de barco ou avião, o que encarece a viagem e dificulta até mesmo que os indígenas gerem renda a partir de suas atividades agrícolas, artesanais, conhecimentos, produtos ou serviços que oferecem. Essa logística difícil encarece o processo”, explicou o documentarista.

    Jorge também explica que a equipe seleciona precisa ser bem escolhida, pois além de ‘topar’ a aventura, ela precisa ser capaz de tirar o máximo do potencial cinematográfico do local.

    “Não podemos deixar de mencionar o desafio de reunir uma equipe grande e qualificada, capaz de desempenhar suas funções e alcançar os resultados que buscamos. Felizmente, temos todos os equipamentos necessários e condições para produzir um excelente material audiovisual e participar de festivais e mostras. Portanto, esse é o segundo desafio: trabalhar com a equipe em direção a um objetivo comum. Foi um dos desafios que enfrentamos, mas, como mencionei, temos excelentes profissionais e, a partir de um acordo incomum e da visão da equipe em produzir algo de excelência, conseguimos superá-lo”.

    A descentralização da produção cinematográfica brasileira é fundamental para ampliar as perspectivas narrativas e valorizar a diversidade cultural do país. Ao trazer o cinema para o interior de Mato Grosso, os produtores culturais estão colocando em destaque as particularidades, paisagens e talentos da região, enriquecendo a indústria audiovisual brasileira como um todo.

    Lucas do Rio Verde está se consolidando como um novo polo cinematográfico, demonstrando que o talento e a criatividade não estão restritos aos grandes centros urbanos. A cidade está pronta para receber e colaborar com profissionais do cinema, contribuindo para a construção de um cenário audiovisual mais diversificado e representativo.

    A iniciativa dos produtores culturais do interior de Mato Grosso em impulsionar a descentralização da produção cinematográfica é uma conquista não apenas para a cidade de Lucas do Rio Verde, mas para todo o estado e o país. Essa iniciativa inspiradora abre caminhos para o reconhecimento do potencial artístico e cultural de outras regiões, estimulando a criação de novas histórias e fortalecendo a identidade cinematográfica brasileira.

    Com o documentário “Mel da Floresta-Xingu”, o filme “Dezesseis”, além de outros projetos em andamento, Lucas do Rio Verde está deixando sua marca na indústria audiovisual brasileira, mostrando que a produção cinematográfica no interior de Mato Grosso tem muito a oferecer. O futuro do cinema brasileiro é promissor, e a descentralização da produção é um passo importante para a construção de uma indústria mais inclusiva e representativa.

    A Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) tem até o dia 11 de julho para encaminhar ao Governo Federal um Plano de Ação contendo informações sobre as iniciativas que serão adotadas em Mato Grosso. Essas ações englobam editais, convocações públicas, premiações e demais medidas.

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